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‘O homem que escutava os próprios pés’, por João Roberto Giacomini

Crônica de um cidadão dividido entre a prudência e o pão de queijo
Bom dia. São 6h58 da manhã.
Está fazendo 9 graus em Campo Grande. Nove.
O ser humano definitivamente não foi projetado para viver abaixo dos 18.
Continuo imóvel na cama, enrolado no cobertor, tentando reunir coragem para colocar os pés no chão gelado.
Mas o problema nem é o frio.
O problema é que, no exato instante em que meus pés encostam no piso, começa a primeira reunião oficial do dia.
A Assembleia dos Pés.
O Pé Direito preside.
O Pé Esquerdo tumultua.
O Pé Direito acorda organizado.
Tem energia de servidor concursado que leva caneta própria para reunião.
Ele desperta antes de mim e já começa:
— Bom dia. Hoje temos reunião às 10h, banco às 11h, cartório às 14h e, se Deus quiser, voltamos vivos para casa sem parcelar nada.
O Pé Direito é prudente. Responsável. Conservador.
Se fosse uma pessoa, teria previdência privada, pasta catalogada por cores e seguro contra terceiros.
Já o Pé Esquerdo nasceu sem supervisão.
O Pé Esquerdo é a prova científica de que o caos pode adquirir personalidade jurídica.
Ele acorda dizendo:
— E se a gente largasse tudo e fosse comer pão de queijo?
— São 7 horas da manhã.
— Justamente. O pão acabou de sair.
— Temos compromisso.
— E temos fome. Não seja radical.
O Pé Direito intervém imediatamente:
— Vamos pela avenida principal. Mais segura. Menos trânsito. Menos tentações.
O Pé Esquerdo rebate:
— Ou podemos passar naquela cafeteria nova onde um cappuccino custa o valor de uma pequena ação judicial.
— NÃO.
— Mas o café vem desenhado.
— É espuma de leite.
— Arte também alimenta a alma.
O problema do Pé Esquerdo é que ele argumenta bem.
Muito bem.
Perigosamente bem.
Ele transforma irresponsabilidade financeira em desenvolvimento pessoal.
— Você não está gastando dinheiro. Está investindo em conforto emocional térmico.
— Isso é um aquecedor em doze parcelas.
— Saúde não tem preço.
— Tem sim. Está em doze parcelas.
Outro dia ele sugeriu:
— Vamos entrar nessa loja só pra olhar.
“SÓ PRA OLHAR.”
Essa frase destruiu mais orçamentos familiares do que o cartão de crédito com aproximação.
Entrei para olhar.
Saí com: uma air fryer nova, um barbeador que aparentemente conversa com bluetooth, duas meias novas e uma dignidade parcelada em três vezes sem juros.
O Pé Direito permaneceu em silêncio o caminho inteiro.
Aquele silêncio de quem já esperava o pior.
Porque o Pé Direito nunca grita.
Ele apenas se decepciona lentamente.
E no fim do dia, quase sempre, ele está certo.
Mas existe um detalhe importante:
os melhores absurdos da minha vida vieram do Pé Esquerdo.
As histórias. As viagens sem planejamento.
Os cafés desnecessários. As compras emocionalmente comprometedoras.
As curvas erradas. As pessoas improváveis.
Tudo começou com:
— E se a gente passasse rapidinho ali?
Claro que quase sempre termina em arrependimento.
Mas arrependimento com boas histórias.
E boas histórias são praticamente patrimônio emocional.
Hoje de manhã, com 9 graus e minhas articulações produzindo sons inéditos para a medicina brasileira, os dois voltaram a discutir.
Pé Direito:
— Vamos trabalhar, cumprir horários e sobreviver financeiramente.
Pé Esquerdo:
— Sorvete.
— Está frio.
— Exatamente. O sorvete vai confundir o organismo e talvez ele desista de sofrer.
Pé Direito:
— Estamos ferrados.
Eu:
— Estamos.
E assim sigo vivendo:
um homem, dois pés, nenhum equilíbrio emocional e um cartão de crédito permanentemente em observação.
Porque a vida raramente melhora andando apenas em linha reta.
Às vezes, o que salva a semana é justamente a curva errada.
Mesmo que ela termine num pão de queijo, num sorvete em pleno inverno, ou numa compra parcelada que seu “ego” precisará defender futuramente como “decisão racional”.
E você… já percebeu qual dos seus pés anda decidindo sua vida ultimamente?

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