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Quando a cidade desaprende o silêncio: o que se perde junto com as árvores

Reinaldo de Mattos Corrêa –

Se o desaparecimento de uma árvore raramente provoca reação, isso não ocorre por acaso. Há, na vida urbana, um aprendizado silencioso: aprende-se a não ver. Aquilo que antes causaria estranhamento — a ausência de sombra, o calor crescente, a aridez do espaço — passa a ser percebido como normal, inevitável, parte do funcionamento da cidade.

Esse processo não é apenas sensorial, mas profundamente cultural e político. A cidade ensina habitantes a reconhecer certas coisas como relevantes e a ignorar outras. Obras, asfaltamento, expansão imobiliária e fluxos de trânsito são constantemente apresentados como sinais de progresso. Já a presença das árvores, embora valorizada em discursos genéricos, raramente ocupa o centro das decisões concretas.

Forma-se, assim, uma hierarquia do visível. O que se mede, se calcula e se integra ao planejamento técnico ganha prioridade. O que cresce lentamente, o que não responde de imediato às lógicas de produtividade, é relegado a um segundo plano. A árvore deixa de ser parte estruturante da cidade e passa a ser um elemento decorativo — e, como tal, substituível.

Em Dourados, como em tantas outras cidades, esse fenômeno se manifesta de maneira discreta, porém contínua. Não há, na maioria das vezes, um grande gesto de destruição, mas uma sucessão de pequenas intervenções: uma remoção aqui, outra ali, justificadas por necessidades pontuais. O resultado não se vê no instante, mas se revela ao longo dos anos, quando a cidade se torna mais quente, mais seca, mais dura. E mais barulhenta.

Aí está o que pouco se associa à causa: espaços arborizados funcionam como barreiras naturais que absorvem e dissipam ruídos. Folhas, galhos e copas criam um filtro acústico que suaviza o impacto de veículos, vozes e movimentações urbanas. Quando essa estrutura desaparece, o som se propaga com mais intensidade. Ruídos que antes eram difusos tornam-se diretos, agressivos, presentes. O espaço perde a sensação de abrigo e passa a transmitir uma tensão contínua, muitas vezes não identificada conscientemente.

Além do som, há também uma transformação no comportamento do vento. Árvores atuam como elementos de contenção e equilíbrio, reduzindo a velocidade das correntes de ar e distribuindo melhor sua passagem. Sem essa proteção natural, o vento circula com mais força e irregularidade, aumentando o desconforto térmico e contribuindo para um ambiente mais instável.

Essa combinação — mais ruído, mais vento, menos suavidade — altera a relação das pessoas com o espaço público. Permanecer deixa de ser agradável, caminhar se torna menos confortável, e a experiência urbana perde qualidade de forma gradual. Não há um evento específico que marque essa mudança, mas um acúmulo de pequenas transformações que, juntas, redefinem o ambiente.

O mais significativo, talvez, não seja a retirada em si, mas a ausência de questionamento. Quando a perda deixa de ser percebida como perda, ela já foi plenamente incorporada ao modo de vida. A cidade, nesse momento, não apenas mudou fisicamente — transformou também a forma como habitantes sentem, percebem e avaliam o espaço ao redor. O barulho que chega é, no fundo, o som da nossa própria indiferença.

Esse aprendizado da indiferença constitui um dos aspectos mais profundos do empobrecimento urbano. Não se trata apenas de menos árvores, mas de menos sensibilidade àquilo que sustenta a qualidade da vida cotidiana. A sombra deixa de ser uma necessidade e passa a ser um detalhe. O frescor torna-se exceção. O silêncio, uma raridade. O desconforto, regra.

Diante disso, o primeiro gesto necessário não é só plantar ou preservar — ainda que isso seja fundamental —, mas reaprender a ver e a ouvir. Interromper essa adaptação silenciosa, recuperar a capacidade de estranhar o que se tornou comum. Perguntar por que determinados espaços se tornaram inóspitos, por que caminhar ficou mais difícil, por que permanecer na cidade parece cada vez menos convidativo.

Uma cidade que não vê árvores é também uma cidade que deixa de ouvir o próprio silêncio. E recuperar esse olhar e essa escuta pode ser o início de uma transformação mais ampla — não apenas do espaço urbano, mas da forma como ocorre a relação com ele.

Quando o medo de perder o controle sobre o progresso deixa de conduzir as decisões, a vida urbana pode deixar de ser um risco e voltar a ser uma forma direta de estar vivo.

*Produtor Rural em Mato Grosso do Sul.

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