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Autismo em mulheres adultas: o que quase ninguém vê, mas muitas vivem

Quando pensamos em autismo, ainda é comum que a imagem que venha à mente seja a de um menino com dificuldades evidentes de comunicação. Mas essa visão, além de limitada, tem deixado muitas pessoas de fora — especialmente mulheres.

O autismo em mulheres adultas ainda é pouco reconhecido, frequentemente subdiagnosticado ou confundido com outras condições, como ansiedade, depressão ou até traços de personalidade. E isso não acontece por acaso.

Quanto custa “mascarar” as dificuldades?
Muitas mulheres aprendem, desde cedo, a “mascarar” suas dificuldades.

Elas observam, imitam, ensaiam. Aprendem a sustentar contato visual, a sorrir no momento certo, a responder socialmente de forma esperada — mesmo que, por dentro, estejam exaustas. Esse esforço constante de adaptação é conhecido como masking (camuflagem social).

E aqui está o ponto: o mundo vê alguém “funcionando bem”, mas não vê o custo disso.
Do lado de dentro, é comum encontrarmos relatos de sobrecarga mental, sensação de inadequação, dificuldade em manter relações sociais com espontaneidade e um cansaço profundo após interações aparentemente simples. Como se cada encontro social exigisse um roteiro invisível — seguido com atenção milimétrica.

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Além disso, o autismo em mulheres pode se manifestar de forma mais sutil.
Os interesses restritos, por exemplo, podem ser socialmente aceitos (como leitura, organização, temas específicos), o que dificulta a identificação.

A sensibilidade sensorial pode aparecer como irritação com barulhos, etiquetas de roupa, cheiros ou ambientes muito estimulantes — algo que muitas vezes é interpretado apenas como “ser mais sensível”.

E as emoções?
Outro ponto importante é a forma como essas mulheres lidam com as emoções.

Há, com frequência, uma intensidade emocional elevada, associada a dificuldades na regulação. Isso pode gerar crises internas silenciosas, ansiedade constante ou uma sensação de estar sempre “no limite” — mesmo quando tudo parece sob controle externamente.
Não é raro que o diagnóstico venha apenas na vida adulta.

Muitas mulheres chegam ao consultório após anos de tentativas de entender por que se sentem diferentes, deslocadas ou sobrecarregadas. Algumas passaram por diversos tratamentos sem que a raiz da questão fosse, de fato, compreendida.

Quando o diagnóstico chega, ele não é um rótulo. É, muitas vezes, um alívio.
É como reorganizar a própria história com uma nova lente. Entender que não era “falta de esforço”, “exagero” ou “sensibilidade demais”, mas um funcionamento neurológico diferente. E, a partir disso, construir estratégias mais gentis, mais possíveis — e mais respeitosas consigo mesma.

Falar sobre o autismo em mulheres é ampliar
Falar sobre autismo em mulheres adultas é ampliar o olhar.

É reconhecer que nem todo autismo é visível. Que nem toda dificuldade aparece de forma clássica. E que, por trás de muitas mulheres que “dão conta de tudo”, pode existir uma mente cansada de se adaptar o tempo inteiro.

Mais do que diagnosticar, é sobre legitimar experiências. E talvez, para muitas, esse seja o primeiro passo para finalmente se sentir compreendida — não apesar de quem são, mas exatamente por isso.

(Informações R7)

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