Julio Pompeu (*) –
Os sons do engenho faziam pano de fundo sonoro para a conversa daqueles digníssimos homens do século XVII. Os rangidos de engenhos, gritos de capitães e o cantarolar triste dos escravos, vez ou outra, eram atravessados pelos barulhos das panelas na cozinha e gritos das brincadeiras das crianças pela Casa Grande.
O Barão compartilhava sua apreensão com o bispo e o juiz. “Os senhores, certamente, estão a saber desses negros fugidos que estão a se amontoar na Serra da Barriga. Um absurdo! Esses negros não percebem que é somente por nossa graça que têm abrigo e comida? Somos nós, senhores de engenho, que produzimos tudo nestas terras. Se não fosse pelas nossas mãos e conhecimentos, ainda estariam naquela vida imunda na África!”.
“E ainda estariam perdidos por aí, expondo suas vergonhas!”, emendou o Bispo, com o rosto corado não se sabe se por fervor, por vergonha de imaginar as vergonhas alheias ou por efeito dos exageros ao tomar licor de jenipapo. “Vamos resolver este problema em breve. Já há uma tropa sendo organizada pelo Capitão Mor para este fim, em breve não haverá mais sequer a lembrança destes mocambeiros”.
Não se lembravam de um setembro mais quente do que aquele de 1871. O Desembargador testava a melhor abertura das janelas da sala do Casarão para dosar a entrada de vento fresco e a luz quente do sol. “Este calor deve ser sinal do fim dos tempos!”, exclamou enxugando o suor com seu lenço.
“Certamente…”, concordou o Barão. “Deve ser Deus punindo este país pela falta de juízo. Vejam essas ideias abolicionistas! Será que estes liberais não entendem que a abolição vai quebrar o país? Veja só as ações do Banco do Brasil como estão em queda devido a estes rumores de uma Lei do Ventre Livre. Estes malditos liberais parecem querer nos punir. A nós, que somos quem produz neste país. Se Deus não acabar com o mundo, pode deixar que os liberais abolicionistas o farão”. “Só espero que o façam com menos calor”, emendou o Desembargador, sacando do bolso um lenço menos encharcado.
Eugênia chegou na sala assustada com a exaltação do marido. “Comunista, comunista!”. Tranquilizou-se quando percebeu que ele não gritava com os convidados. “Este João Goulart é um comunista. Co-mu-nis-ta! Vai quebrar o país com seus devaneios bolcheviques. Que ideia mais sem sentido pagar um décimo terceiro salário! Não vê que vai quebrar o país? É isto que recebemos por gerar empregos neste país? A punição deste comunista?”.
“É o salário do colapso, da discórdia. Está desunindo o país com esta sandice completa”, concordou Antero, importante jornalista carioca. “Mulher, não fique aí nos olhando com essa cara, mande logo Maria nos servir o café! Ou você também quer um décimo terceiro?”, gritou como ironia e fúria para sua esposa, arrancando gargalhadas dos convidados.
“É só por causa destas eleições. Vão criar essa tal de escala 5 por 2 só porque é popular. Esses políticos não pensam no bem do país. São uns insensatos. Será que não percebem o impacto disto na economia? Vão acabar quebrando o país. Já não basta essa Constituição de 1988 cheia de direitos e agora mais essa?”, disse Murilo à mesa, enquanto finalizava a paella que ele mesmo havia orgulhosamente preparado.
“É só populismo, não adianta. Esse pessoal de Brasília só quer saber de dinheiro e de vantagem para eles. E nós aqui, empresários, que geramos os empregos deste país, temos que pagar a conta. Já não basta bolsa isso, bolsa aquilo que cria essa gente que não quer trabalhar? Este salário mínimo quase impagável e agora mais essa?”, disse Carlos, empresário do setor de autopeças, enquanto oferecia a todos mais uma garrafa de Pazo de Señorans.
“É, a situação não está fácil para ninguém. Coisa desse governo que só quer arrecadar. Veja, cortaram vários benefícios meus. Soube de colegas até com dificuldades para pagar médico! Se continuar assim, daqui a pouco vamos trabalhar como escravos”, disse a desembargadora enquanto era servida pela empregada negra.
(*) Escritor e palestrante, professor de Ética do Departamento de Direito da UFES, ex-secretário de Direitos Humanos no ES.
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