Uma divisão que não foi anunciada
Há divisões que chegam com discurso, bandeira e barulho.
E há aquelas que se instalam sem pedir licença — quando a gente percebe, já está dentro delas.
O Brasil, por exemplo, resolveu se dividir de um jeito curioso.
Não por ideologia, nem por geografia, nem por qualquer dessas explicações que cabem em debate de televisão.
Desta vez, a divisão foi mais íntima.
Quase silenciosa.
Metade tentando fazer o dinheiro render.
A outra metade tentando caber no próprio corpo.
E nenhuma das duas coisas tem dado exatamente certo.
O esforço que se calcula
Há quem organize a vida como quem ajusta uma planilha que insiste em não fechar.
Não é só sobre ganhar mais — é sobre dar sentido ao número, justificar o esforço, convencer-se de que disciplina resolve o que o mundo desorganiza.
Essa metade acorda com metas.
Fala em rendimento como quem fala de futuro — mas com um cuidado estranho, como se o futuro pudesse se ofender.
O dinheiro, aqui, não é só recurso.
É argumento.
E talvez por isso pese mais do que deveria.
O corpo que negocia
Do outro lado — embora não exista exatamente um “outro lado” — há quem negocie com o espelho como quem renegocia uma promessa antiga.
Não se trata apenas de aparência.
Há algo mais difícil de admitir: a tentativa de retomar um controle que nunca foi completamente nosso.
Começa-se com decisão.
Mantém-se com esforço.
E termina-se, quase sempre, com uma conversa silenciosa — dessas em que ninguém vence, mas alguém cede.
O corpo, às vezes, não resiste.
Mas também não esquece.
O ponto em que nada se resolve
O curioso é que essas duas tentativas não se anulam.
Também não se encontram.
Elas apenas coexistem — como duas versões da mesma inquietação, vestidas de soluções diferentes.
Porque não é exatamente sobre dinheiro.
Nem sobre peso.
É sobre a sensação incômoda de que, em algum momento, a vida saiu levemente do lugar…
e ninguém percebeu quando.
O hábito de recomeçar
Ainda assim, há algo que se repete — e talvez seja isso que mantém tudo funcionando.
O recomeço.
Não como solução.
Mas como estratégia de convivência com aquilo que não muda.
“Agora vai.”
A frase aparece com a naturalidade de quem já sabe que não vai,
mas prefere manter o acordo.
E há uma honestidade silenciosa nisso.
Nem sempre é sobre acreditar.
Às vezes é só sobre continuar.
O que fica — mesmo quando nada muda
Enquanto isso, o país segue.
Não exatamente equilibrado,
mas suficientemente ajustado para continuar.
Entre uma conta que nunca termina de fechar
e um corpo que nunca termina de responder,
vamos nos organizando como dá.
Sem resolver.
Sem abandonar.
Talvez porque exista algo que nenhuma planilha calcula
e nenhum espelho devolve.
Uma espécie de insistência que não melhora —
mas também não desiste.
E talvez seja isso.
Não o dinheiro.
Não o corpo.
Mas essa maneira discreta de seguir,
mesmo quando já não se espera muito resultado.
E o que não se diz
Há coisas que não entram na conta.
Nem aparecem no reflexo.
Mas continuam ali.
E talvez seja justamente isso que mais pesa.





