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‘Casa de quem permanece’, por João Roberto Giacomini

Há quem entre, olhe em volta
e não reconheça o silêncio —
porque ele não grita,
não chama,
não promete nada.

E vai embora.

Mas há quem fique.

Não porque encontrou respostas,
mas porque percebeu
que algumas perguntas merecem companhia.

Aqui se vive cultura
sem a pressa de nomeá-la.

Ela aparece no gesto de quem lê devagar,
no cuidado de quem escreve sem garantia,
na escolha — quase sempre invisível —
de permanecer quando ninguém está olhando.

Aqui se lê poesia
como quem escuta algo
que ainda não terminou de ser dito.

Nem sempre ela acerta.
Nem sempre alcança.
Mas, quando toca,
não explica —
apenas muda o ritmo de quem lê.

Aqui se vive a vida
não como quem resolve,
mas como quem observa.

Há dias densos.
Textos que não se completam.
Palavras que ficam pela metade —
e, curiosamente,
é ali que algo começa.

Aqui, às vezes, chegamos perto do céu.

Não como lugar,
mas como instante.

Um trecho que respira.
Uma frase que desacelera o pensamento.
Um silêncio que não pesa.

E então, quase sem perceber,
tocamos o íntimo.

E há um momento — raro —
em que se sente o coração.

Não o que se diz.
O que pulsa.

Talvez seja isso
o que faz alguém ficar.

Não a promessa de ser ouvido,
nem a certeza de ser compreendido —

mas a possibilidade, ainda frágil,
de existir ali
sem precisar ir embora tão rápido.

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