Reinaldo de Mattos Corrêa (*) –
Existe um tipo de ausência que grita. Não é a ausência de obras, nem de eventos, nem de discursos oficiais cuidadosamente lapidados. É uma ausência mais profunda, quase invisível — a ausência de um espaço onde o pensamento possa respirar sem pressa, sem propaganda, sem utilidade imediata. Dourados, com toda a sua potência econômica, universitária e cultural, ainda não construiu esse espaço essencial: uma grande biblioteca pública municipal, central, viva, pulsante. E esse vazio não é técnico — é existencial.
Uma biblioteca não é um prédio cheio de livros. Isso é o que dizem os relatórios burocráticos, os editais, os planejamentos mornos. Uma biblioteca é um território de liberdade interior. É o único lugar na cidade onde um jovem pode sentar e pensar sem ser empurrado para consumir, votar, obedecer ou acreditar. É um espaço perigoso — porque quem lê começa a questionar. E quem questiona deixa de ser massa. Talvez seja exatamente por isso que ela ainda não existe na escala que Dourados merece.
A Secretaria Municipal de Cultura precisa compreender que não se trata de mais um equipamento cultural. Trata-se de um marco civilizatório. Enquanto se investe em agendas episódicas, festividades e ações pontuais, permanece negligenciado o coração silencioso que sustenta qualquer sociedade que deseja amadurecer. Sem uma biblioteca central robusta, acessível, moderna e simbólica, Dourados continua orbitando em torno da superfície — movimentada, mas rasa.
E há um contraste que incomoda — e deveria incomodar mais. Três Lagoas, uma cidade menor, já compreendeu o que Dourados ainda hesita em assumir. Lá, uma biblioteca municipal estruturada não é promessa, é realidade. Isso não é apenas uma comparação administrativa; é um espelho desconfortável. O que impede Dourados de fazer o mesmo? Falta de recursos? Ou falta de decisão? Porque, sejamos honestos: cidades não são limitadas pelo que têm, mas pelo que escolhem não priorizar.
O silêncio institucional sobre esse tema começa a ganhar contornos mais densos. Não se trata mais de desconhecimento, mas de omissão. E a omissão, quando prolongada, revela prioridades ocultas. O que está sendo protegido ao não se construir uma grande biblioteca? Porque toda escolha urbana é também uma escolha política sobre o tipo de cidadão que se deseja formar. E uma cidade sem biblioteca forte está, consciente ou inconscientemente, escolhendo cidadãos mais fáceis de conduzir.
Uma biblioteca central em Dourados não seria apenas um espaço de leitura. Seria um ponto de convergência entre universidade, escola, periferia e centro. Um lugar onde o saber deixa de ser fragmentado e passa a circular. Onde o jovem da periferia pode acessar o mesmo universo simbólico que o estudante universitário. Onde o conhecimento deixa de ser privilégio e se torna experiência comum. Isso não é romantismo — é infraestrutura democrática.
Mas há algo ainda mais profundo. Uma biblioteca é um convite ao encontro com o próprio pensamento. E isso assusta. Porque quando o indivíduo se encontra consigo mesmo, ele começa a ver as estruturas à sua volta com outros olhos. Ele percebe as narrativas prontas, os discursos repetidos, as verdades empacotadas. Ele começa a sair do automático. E uma sociedade de indivíduos conscientes não é facilmente governada — ela é dialogada.
Talvez por isso o tema permaneça sempre à margem das prioridades urgentes. Porque ele não gera manchetes rápidas, não rende aplausos imediatos, não produz capital político instantâneo. Mas constrói algo muito mais radical: consciência ao longo do tempo. E consciência não se inaugura com fita e placa — ela se infiltra lentamente, como uma revolução silenciosa.
A Secretaria Municipal de Cultura tem, neste momento, uma escolha rara diante de si. Pode continuar administrando o presente com prudência e repetição… ou pode inaugurar um gesto histórico. Um gesto que reposicione Dourados não apenas como polo econômico ou universitário, mas como território de pensamento livre. Uma grande biblioteca municipal não é um luxo. É um divisor de águas entre uma cidade que consome conhecimento e uma cidade que o produz.
No fim, a pergunta não é técnica. É quase íntima: Dourados quer, de fato, uma população mais consciente? Porque uma biblioteca verdadeira não entrega respostas — ela fabrica perguntas. E perguntas são perigosas. Elas atravessam certezas, desmontam narrativas e expõem o que estava confortável demais para ser visto.
Se o silêncio continuar, ele já não será neutro. Será uma escolha.
E toda escolha… revela quem realmente somos.
(*) Produtor Rural em Mato Grosso do Sul.






