Por João Roberto Giacomini – advogado & escritor
Há dias em que o peso não cai —
ele se instala.
Não faz barulho ao chegar,
não pede licença,
não se anuncia como dor.
Apenas ocupa.
Ocupa o espaço entre um pensamento e outro,
o intervalo curto entre respirar e continuar,
o lugar exato onde antes havia leveza —
e eu nem sabia.
Eu digo para mim mesmo:
vai passar.
Repito,
como quem acende uma luz
num quarto ainda cheio de noite.
Vai passar —
mas não agora.
E o agora insiste.
Tem a densidade das coisas que não cedem,
o gosto morno das horas longas,
uma espécie de permanência
que não chega a ser eterna,
mas também não sabe ir.
Ainda assim,
há algo —
quase nada —
que permanece em mim sem peso.
Não é força.
Não é fé dessas que se mostram.
É só um resto de movimento,
uma pequena recusa em parar completamente.
Como uma ave que, mesmo cansada,
não esquece o gesto do voo.
E então, muito devagar,
quase imperceptível,
o peso desaprende a ser centro.
Ele não desaparece —
mas já não ocupa tudo.
E nesse espaço mínimo,
onde antes não cabia nada,
cabe um sopro.
E no sopro,
uma mudança tão pequena
que só quem sente percebe:
já não é o mesmo peso.
E eu também não.

