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‘Você, eu e o que ficou do amor’, por João Roberto Giacomini

Por João Roberto Giacomini – advogado & escritor

Começa sempre assim: o amor chega antes de você saber que chegou. Não bate à porta — ocupa o ar e tudo que te move. E, de algum modo discreto, rearranja a maneira como você segura um copo, como demora um segundo a mais diante de uma vitrine, como escuta o próprio nome quando alguém o chama. Não é grandioso no início; ao contrário, parece uma pequena distração do mundo. Mas é ali que ele se instala — nessa leve alteração de foco que você ainda não sabe nomear. Bendito seja o momento.

Falo de você e do amor como quem observa duas linhas que se aproximam sem tocar. Você, com suas convicções provisórias, e o amor, com sua insistência silenciosa. Você tenta organizá-lo — medir, definir, proteger. Ele, no entanto, prefere aquilo que escapa quando você tenta idealizá-lo. Há algo nele que não se acomoda em prateleiras. Talvez por isso você desconfie: porque tudo que pode ser guardado também pode ser perdido, e o amor parece recusar essa lógica com uma espécie de teimosia elegante. Como se dissesse, em silêncio, aquilo que Rainer Maria Rilke escreveu de outro modo: “amar é isto: duas solidões que se protegem, se tocam e se saúdam.”

Há quem tenha apostado tudo nisso — não no que o amor promete, mas no que ele retira. Um poeta escreveu certa vez, em algum quarto onde a luz já não chegava inteira, que amar era um modo de permanecer quando tudo o mais já havia partido. Outro, mais cedo, trocou a própria biografia por uma sucessão de cartas nunca respondidas, como se o amor fosse menos um encontro e mais um exercício de presença na ausência. Eles não saíram ilesos. Nenhum deles saiu acompanhado. E, ainda assim, havia ali algo que não cabia na palavra “perda”.

Depois, sem que você perceba exatamente quando, a frase muda: já não é você e o amor, mas você, eu e o amor. E isso complica as coisas de um modo inevitável. Porque o amor, quando entra em três, não soma — tensiona. Há gestos e frases que passam a ter duplo sentido, silêncios que já não são apenas pausas, mas escolhas. Nós dois aprendemos, talvez tarde demais, que o amor não resolve a equação; ele a torna mais honesta.

Lembro de uma tarde em que não dissemos nada de importante, e mesmo assim havia uma espécie de gravidade entre nós. Você olhava para fora, eu fingia ler, e o tempo — esse terceiro discreto — observava tudo com uma paciência que só ele tem. Não houve promessa, nem despedida. Apenas a sensação de que algo tinha sido dito por baixo daquilo que não dissemos. O amor, às vezes, prefere esse idioma — quase sempre sem tradução.

E então chegamos ao ponto em que as posições se embaralham: eu, você e o amor já não cabem em ordem alguma. O amor passa a existir não entre nós, mas apesar de nós. É quando ele revela seu lado mais difícil — não o da intensidade, mas o da permanência. Permanecer sem garantias, sem retorno claro, sem a confirmação constante de que vale a pena. Sem carícias, sem cama. É aqui que muitos recuam. Não por falta de sentimento, mas por excesso de lucidez.

Há um verso antigo que insiste em atravessar esses momentos — algo sobre continuar amando mesmo quando o mundo não devolve na mesma medida. Não como sacrifício, mas como escolha silenciosa. Os poetas que ficaram sozinhos talvez tenham entendido isso antes de nós: o amor não se sustenta na reciprocidade perfeita, mas na decisão imperfeita de não o abandonar completamente.

E, por fim, resta o que talvez sempre esteve ali: o amor e eu. Sem você como eixo, sem nós como estrutura. Apenas essa matéria estranha que continua, mesmo quando a história muda de direção. Não é consolo — ou, se for, é de um tipo que não tranquiliza. É mais próximo de uma companhia discreta, algo que não impede a solidão, mas a modifica levemente.

Penso, às vezes, que amar não é encontrar alguém, mas encontrar uma forma de continuar mesmo quando não há mais encontro possível. E isso não tem a ver com derrota. Tem a ver com uma espécie de fidelidade que não exige presença — apenas reconhecimento.

Se isso precisava ser dito agora, talvez seja porque há coisas que só se tornam visíveis quando já não podem ser mudadas. E, ainda assim, continuam — entre nós três.

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