21 de abril – Dia Internacional da Poesia
Por João Roberto Giacomini – advogado & cronista
O Ofício Invisível do Poeta
Ninguém vê
quando nasce um poema.
Ele não pede licença,
não agenda visita,
não escolhe hora nobre.
Vem no trânsito,
no silêncio do quarto,
no meio de uma despedida mal resolvida
ou no riso solto de uma mesa cheia.
O poeta — ah, o poeta —
é surpreendido por dentro.
Às vezes com o coração em festa,
às vezes em ruínas,
às vezes em pedaços tão pequenos
que mal cabem no peito.
Mas ainda assim, escreve.
Não recua.
Não negocia com o sentimento.
Não adia a palavra.
Porque há urgências
que só a alma entende.
E quando escreve,
não escreve palavras:
dá à luz.
Seu poema não é texto —
é filho.
Carrega traços seus,
defeitos seus,
excessos seus,
silêncios seus.
Há poemas que nascem frágeis,
outros, tempestades.
Há os que sussurram
e os que gritam por dentro.
Mas todos — todos —
são pedaços de eternidade
tentando caber em linhas curtas.
O poeta, então, contempla:
“Será isto arte
ou apenas um desabafo bonito?”
E nunca sabe.
Porque sua obra é ponte —
e ponte não decide
quem atravessa.
Há quem leia e chore,
como quem reencontra uma dor esquecida.
Há quem leia e ria,
como quem revive um milagre cotidiano.
E o mesmo verso,
veja só,
pode ser lágrima em um
e gargalhada em outro.
E nisso mora o sagrado.
O poeta homenageia tudo:
o sol que insiste,
a lua que escuta,
as estrelas que confidenciam segredos,
o mar que nunca termina de dizer o que sente.
Mas, no fundo —
no fundo mesmo —
o poeta escreve sobre gente.
Sobre aquilo que pulsa,
quebra,
espera,
e insiste em existir.
E o que ele quer?
Ser compreendido?
Talvez não.
Ser lido,
já é milagre suficiente.
Mas há dias — raros, preciosos —
em que chega uma mensagem:
“Chorei lendo você.”
ou
“Ri tanto… parecia minha história.”
E nesse instante,
o poeta entende:
não escreveu sozinho.
Porque quando alguém se reconhece,
o poema deixa de ser filho
e se torna mundo.
E o poeta, na vida,
é muitas vezes calado, contido, disperso.
Mas na escrita —
ah, na escrita —
ele é inteiro.
Sem medo.
Sem máscaras.
Sem tradução.
Hoje,
no dia em que celebram a poesia,
não celebrem apenas os versos.
Celebrem esse gesto invisível
de transformar sentir em linguagem,
e linguagem em abrigo.
Porque enquanto muitos gritam,
há poetas escrevendo —
e, em silêncio,
salvando o que ainda resta de humano em nós.

