João Roberto Giacomini – advogado & escritor
Não foi de uma vez que as coisas perderam o nome.
Primeiro, deixaram de responder.
Houve um tempo em que cada gesto meu parecia encontrar eco — ainda que pequeno, ainda que atrasado. Eu perguntava, e algo, de algum modo, devolvia. Não importava se vinha de um altar, de uma voz emprestada ou de um silêncio interpretado com esforço: havia sempre a impressão de que eu não estava sozinho naquilo que buscava.
Como se até o silêncio tivesse intenção.
Com o tempo, comecei a desconfiar da resposta antes mesmo de ouvi-la.
Não por descrença súbita, nem por rebeldia — foi mais como quando uma palavra, repetida muitas vezes, começa a perder o sentido. Ainda está ali, inteira, mas já não sustenta o que promete.
E então percebi que eu continuava perguntando não pela resposta, mas pelo alívio de não ter que sustentar a pergunta sozinho.
Isso levou mais tempo do que eu gostaria de admitir.
Porque abrir mão das respostas é menos difícil do que abrir mão da expectativa de ser respondido.
E, sem perceber exatamente quando, parei.
Não houve cena. Isso talvez seja o mais estranho.
Não houve decisão. Não houve coragem especial. Foi mais próximo de um cansaço que não dramatiza — apenas cede.
As perguntas não desapareceram; elas só deixaram de ser lançadas para fora. Permaneceram, mas sem destinatário.
No início, isso pesava.
Havia uma espécie de aspereza no mundo — como se tudo tivesse perdido uma camada invisível que antes amortecia o impacto das coisas. As perdas eram apenas perdas.
Como esquecer um nome no meio da frase e perceber, tarde demais, que ele não volta.
Os dias ruins não escondiam nenhum aprendizado imediato. E até os momentos de alguma alegria vinham sem convite algum — o que, de certo modo, também incomodava.
Nada parecia falar comigo.
E, talvez por isso — ou apesar disso — comecei finalmente a escutar.
Nada de novo, muito menos apocalíptico.
Mas o que sempre esteve ali, encoberto pelo movimento de procurar sentido em tudo, era um tipo de presença sem intenção — não ensinava, não corrigia, não prometia. Também não consolava, pelo menos não do jeito que eu estava acostumado a reconhecer.
Ainda assim, sustentava.
O curioso é que, sem a expectativa de ser acolhido, eu deixei de me sentir rejeitado pelas coisas. O mundo não se tornou mais gentil — apenas deixou de parecer hostil o tempo todo.
Como se a diferença entre amparo e indiferença não fosse tão nítida quanto eu havia insistido em acreditar.
Às vezes penso que chamei de “busca” algo que era, na verdade, uma dificuldade de permanecer.
Permanecer — sem traduzir, sem deslocar, sem pedir confirmação.
Por muito tempo, isso me pareceu o oposto de viver.
Permanecer sem testemunha, sem garantia de que aquilo que eu sentia precisava significar alguma coisa além de si mesmo.
Isso não trouxe paz.
Pelo menos não essa que se reconhece facilmente.
Trouxe outra coisa — mais discreta, menos convincente à primeira vista. Uma espécie de estabilidade que não depende de acordo, nem de compreensão. Ela não melhora o que acontece, mas também não exige que eu melhore junto com tudo.
E há dias em que isso falha demais.
Dias em que quase retorno ao gesto antigo de procurar qualquer coisa que me devolva um pouco de sentido. Às vezes, quase cedo. Às vezes, cedo um pouco.
Não sei se isso anula o resto. Ou se é exatamente disso que ele é feito.
Aquilo que eu chamava de “Deus” se perdeu nesse processo.
E, ainda assim, é o Único que permaneceu — irreconhecível o bastante para não caber em nenhum dos nomes que já usei.
Evito concluir.
Qualquer tentativa de fechar isso parece menor do que a experiência que insiste em não caber em mim.
O que posso dizer, com alguma honestidade, é que já não espero ser sustentado.
E, ainda assim —
continuo.
