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‘O Entardecer que Habita o Tempo’, Por João Roberto Giacomini

Por João Roberto Giacomini – Advogado & Escritor

Há uma vastidão silenciosa no entardecer que quase escapa aos sentidos apressados da cidade.

Não é apenas a luz que se dobra para um repouso efêmero; é algo que atravessa o tempo e encontra, em nós, um espaço de respiração mais lento.

O céu, em seu mutismo dourado, revela contraluzes e sombras que não se explicam — apenas se sentem, como vestígios de um sonho que se recusa a desaparecer por completo.

No entardecer, cada reflexo nas janelas, nos carros ou na superfície da água carrega mais do que luz. Carrega escolhas feitas, ideias interrompidas, silêncios que insistimos em manter.
O tempo, aqui, observa. Não interfere. Apenas acompanha a transição de cores e de ânimos, como quem guarda um segredo que não precisa ser dito.

É nesse intervalo fugidio que se insinua a nostalgia — não como lembrança exata, mas como percepção de algo que já não pode ser recuperado tal como foi.
A vida, afinal, não se organiza em linha reta, mas em fragmentos: perdas relativizadas, ganhos pouco celebrados e vazios que o próprio tempo não preenche.

Há quem busque no entardecer uma espécie de redenção — uma pausa capaz de dissolver os excessos do dia. Mas ele não cura; ele revela.

Mostra que algo sempre permanece: dúvidas, decisões ambíguas, versões de nós que já não existem, mas também não desapareceram por completo.

E nós observamos. Em silêncio.
Respiramos entre a luz que se retira e a escuridão que se aproxima. Há uma estranha harmonia nessa convivência — um instante que já não é dia, mas ainda não é noite, e que, ainda assim, concentra a presença inteira do tempo.

Não se trata de idealizar o momento. O entardecer, como nós, carrega ausências.
E é justamente nelas — nesse espaço em que a luz hesita antes de partir — que se revela a verdadeira dimensão daquilo que somos.

Talvez o entardecer não nos ofereça respostas.
Mas nos obriga a perceber que tudo continua — mesmo quando pensamos que já passou.

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