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‘Ainda acredito na pintura’, uma reflexão a partir de uma provocação de Jeannette Priolli

Homenagem a uma artista para quem a pintura permanece linguagem do humano

Na leitura da ensaísta Ana Maria Bernardelli, toda reflexão verdadeira sobre a arte nasce de uma pergunta que não busca efeito, mas verdade. Foi esse o gesto de Jeannette Priolli, artista de trajetória rigorosa e coerente, ao dirigir a Pedro Mastrobuono uma indagação simples apenas na forma, mas radical em seu alcance: ainda acreditamos na pintura? A pergunta não partiu de fora do ofício, nem do campo das opiniões rápidas. Veio de quem construiu a própria vida na disciplina da forma, no silêncio do ateliê e na consciência da pintura como linguagem do pensamento.

A obra de Jeannette Priolli inscreve-se numa linhagem exigente da arte brasileira. Formada por Aldo Bonadei, dialoga de maneira profunda e não mimética com Alfredo Volpi, sobretudo na compreensão da cor, do ritmo e da construção como atos de sentido. Sua pintura não se oferece ao consumo imediato: ela solicita maturidade do olhar, tempo interior e disponibilidade interpretativa — características que a aproximam, inclusive, de uma leitura possível à luz da semiótica de Umberto Eco, na qual a obra permanece aberta, jamais exaurida. Ainda nos passos de Umberto Eco, cada pintura sua constitui um campo de signos abertos, onde a forma não se esgota na aparência. Nada é imediato, nada é descartável: a obra resiste ao consumo rápido porque foi concebida como experiência de duração. Em Priolli, a imagem não ilustra: ela significa.

'Ainda acredito na pintura', uma reflexão a partir de uma provocação de Jeannette Priolli
'Ainda acredito na pintura', uma reflexão a partir de uma provocação de Jeannette Priolli

A resposta de Pedro Mastrobuono não surge como defesa nostálgica da pintura, nem como manifesto reativo diante do presente. Ela nasce como desdobramento ético da provocação. Ao deslocar a pergunta para o plano antropológico — acreditar na pintura como acreditar no ser humano —, o texto amplia o alcance da questão e a inscreve no campo da cultura, da sublimação e da permanência simbólica. Nesse diálogo silencioso entre artista e intérprete, a pintura emerge não como vestígio de um passado superado, mas como forma viva de conhecimento.

Esta introdução, portanto, não apenas contextualiza uma provocação e sua resposta, mas presta homenagem a uma artista cuja pintura afirma, com rara coerência, que ainda é possível pensar, sentir e conhecer por meio da imagem. Conhecer Jeannette Priolli é reencontrar a pintura em seu sentido mais alto: como linguagem do humano quando o humano se recusa a ser reduzido ao efêmero.

O texto que segue deve ser lido exatamente nesse horizonte — como resposta integral a uma pergunta legítima, feita por uma artista cuja obra já contém, silenciosamente, essa mesma afirmação.

“Recebi, há alguns dias, uma mensagem de uma artista plástica por quem nutro o mais alto conceito intelectual e humano, Jeannette Priolli, pintora de trajetória singular e rigorosa, formada no ambiente mais exigente das artes visuais brasileiras e reconhecida desde muito cedo por sua excepcionalidade. Jeannette foi aluna direta de Aldo Bonadei, a quem também tive o privilégio de conhecer, e integrou aquela geração rara que compreendia a pintura como disciplina do espírito, como construção paciente de linguagem e pensamento. Ainda jovem, teve uma exposição individual no Museu de Arte de São Paulo, distinção concedida por Pietro Maria Bardi, fundador do MASP, gesto que despertou admiração, espanto e, como costuma ocorrer quando o talento se impõe sem concessões, sentimentos pouco confessáveis em parte do meio artístico paulista.

Radicada posteriormente no Rio de Janeiro, Jeannette seguiu um percurso coerente, discreto e profundamente comprometido com a pintura enquanto forma de conhecimento. Foi ela quem me escreveu com uma pergunta simples e, ao mesmo tempo, devastadora em sua densidade: se eu ainda acreditava na pintura como acreditava antes. A pergunta me atravessou com força porque ela sabe que cresci no ambiente do colecionismo, que dediquei minha vida às artes visuais, à reflexão sobre a cultura e à escuta atenta dos seus processos mais profundos. Não era uma pergunta retórica. Era uma provocação legítima, feita por alguém que conhece o ofício por dentro.

Perguntar se ainda acredito na pintura é, na verdade, perguntar se ainda acredito no ser humano. A arte não é ornamento da civilização, nem adereço supérfluo do tempo histórico. Ela é sublimação. É o momento em que a dor encontra forma, em que o sofrimento deixa de ser apenas peso e se transforma em linguagem, em gesto comunicável. A pintura existe porque o humano precisa dizer aquilo que não cabe no discurso ordinário. Enquanto houver humanidade, haverá arte. E enquanto houver arte, haverá alguém tentando organizar o caos interior em imagem, cor, matéria e silêncio.

Não é por acaso que o colecionismo, ao longo da história, tenha surgido com tanta frequência entre profissionais liberais profundamente expostos ao drama humano. Psiquiatras, psicólogos, advogados, especialmente aqueles que atuam nas áreas criminal e de família, convivem diariamente com a dor em estado bruto. Eles reconhecem na obra de arte aquilo que conhecem intimamente. Reconhecem a catarse, a sublimação, o gesto que transforma sofrimento em construção simbólica. A obra fala porque partilha a mesma gramática da experiência humana profunda.

Os modismos artísticos, por sua vez, não são sinais de vitalidade, mas sintomas de uma humanidade que, por vezes, se comporta de maneira regressiva e infantilizada. A fruição da arte exige maturidade, paciência, disponibilidade interior. Exige tempo. A metáfora do vinho é inevitável. Não se degusta com pressa, não se engole sem atenção. É preciso aprender a esperar, a perceber nuances, a reconhecer aquilo que distingue uma obra das demais. Juventudes tomadas por uma sede imediata de viver, muitas vezes, não degustam, apenas consomem.

A humanidade não avança em linha reta. Ela oscila, recua, tropeça. O crescimento da violência, dos conflitos multiculturais e da intolerância que hoje atravessam a Europa e tantas outras regiões do mundo nasce, em grande medida, da ignorância. Discursos superficiais, frequentemente mal-intencionados e financiados, encontram terreno fértil em uma juventude que desconhece os cânones religiosos, ignora as promessas fundadoras, não leu os textos, não compreende a história, os contextos e as circunstâncias. Sem norte, sem repertório e sem ferramentas críticas, tornam-se facilmente manipuláveis.

Nesse cenário, torna-se cada vez mais raro encontrar o repouso emocional e espiritual necessário para o encontro verdadeiro com a arte. O que se vê, por vezes, é o avesso da fruição estética: jovens que entram em museus para depredar, quebrar, vandalizar. Não por gesto crítico consciente, mas por incapacidade de reconhecimento simbólico. Isso não fala da morte da arte, mas da fragilidade do nosso tempo.

Sim, continuo acreditando na pintura. Continuo acreditando na obra de arte como lugar de resistência, de memória e de humanidade condensada. Mas acredito, sobretudo, que a arte exige maturidade, silêncio interior e sensibilidade. Não é a pintura que se tornou distante. É o olhar que se tornou apressado demais. Enquanto houver quem seja capaz de parar, olhar, escutar e reconhecer a dor transformada em forma, a pintura seguirá viva, necessária e profundamente humana.

Pedro Machado Mastrobuono – Pós-doutor em Antropologia Social; agraciado pelo Senado Federal com a Comenda Câmara Cascudo por sua trajetória na defesa do patrimônio cultural brasileiro. Ex-presidente do IBRAM -Instituto Brasileiro de Museus, além de sócio fundador e ex-presidente do Instituto Alfredo Volpi de Arte Moderna. É também doutor honoris causa da Universidade Federal de Mato Grosso do Sul.

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