Por Oswaldo Arnez –
No cenário da ciência brasileira contemporânea, poucas trajetórias conseguem equilibrar
com tanta sobriedade o rigor técnico e a sensibilidade ética como a de Tatiana Coelho de Sampaio.
Tatiana Sampaio como é comumente chamada, é graduada em Biologia, com formação
acadêmica voltada à biologia celular e molecular da matriz extracelular. Ao longo de sua trajetória, realizou pós-graduação stricto sensu, incluindo mestrado e doutorado, com pesquisas centradas no papel das proteínas da matriz extracelular no desenvolvimento, organização tecidual e processos regenerativos.
Professora Titular do Instituto de Ciências Biomédicas (ICB) da UFRJ, sua carreira é um
testemunho de que a excelência científica não reside na ostentação acadêmica, mas na profundidade de um trabalho silencioso voltado à valorização da vida humana.
A Geometria da Conexão no formato da estrutura em Cruz, torna-se o pilar central de suas
investigações, que reside na Matriz Extracelular (MEC), o ambiente complexo que envolve, nutre e orienta as células.
Entre as moléculas que compõem esse cenário, a Polilaminina ocupa um lugar de destaque
nas pesquisas lideradas por Tatiana. Descrita em sua fascinante complexidade, a Polilaminina apresenta uma morfologia característica em formato de cruz assimétrica.
Essa conformação em cruz é, na verdade, a chave para a organização da vida nos tecidos.
Composta por três cadeias polipeptídicas ($\alpha$, $\beta$ e $\gamma$), a molécula utiliza seus braços para funções vitais: as extremidades curtas ligam-se a outras moléculas para formar uma rede de sustentação, enquanto o braço longo ancora-se diretamente às células.
Esta estrutura permite que a laminina atue como uma ponte de comunicação, transmitindo
sinais que determinam se uma célula deve crescer, mover-se ou especializar-se. Nas mãos de Tatiana, o estudo dessa “cruz molecular” deixa de ser apenas química teórica para se tornar a base da medicina regenerativa, oferecendo caminhos para a recuperação de lesões nervosas e teciduais.
Uma ciência de valor, sem vaidades, onde a descrição da trajetória de Tatiana Sampaio revela um ambiente acadêmico onde o ego cede lugar ao propósito. No laboratório e na gestão da Diretoria do ICB/UFRJ, a tônica é o trabalho persistente. Existe uma recusa implícita à vaidade que muitas vezes fragmenta o meio científico, substituindo-a pela responsabilidade de manter viva a pesquisa pública de qualidade.
Neste ambiente, o prestígio não é um fim em si mesmo, mas uma consequência da
integridade. A liderança de Tatiana é pautada pela resiliência; em tempos de desafios, sua postura sempre foi a de proteger a infraestrutura científica e a formação de novos pesquisadores, entendendo que o laboratório é, antes de tudo, um espaço de serviço à sociedade.
Para Tatiana, o microscópio é uma janela para entender a força e a vulnerabilidade da vida.
Ao descrever os mecanismos de adesão celular, ela não está apenas catalogando fenômenos biológicos; está construindo o conhecimento necessário para que a ciência brasileira ofereça respostas a traumas e doenças.

