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Da gráfica artesanal à IA: o dia em que a falta de um “s” virou símbolo de insubordinação

Um erro em “classe”, um “mais” que gritou além da conta e um telefonema de Brasília reacenderam memórias da velha Folha de Dourados, dos tempos em que jornal se fazia letra por letra, e amizade também

Valfrido Silva

Passei a primeira sexta-feira 13 do ano inteira brigando com a IAIA, como a inteligência artificial é carinhosamente tratada aqui no contrapontoMS. Não foi discussão editorial, filosófica nem divergência política, foi tipográfica. A ilustração do último texto da série da Uragano, o retorno, estava no ar desde o cantar do galo, vistosa, dramática, com aquele ar vintage que remete aos velhos cartazes de guerra e às capas de jornal de outrora: “URAGANO, o retorno que a clase política MAIS temia”. Bonita. Provocativa. Só que manca. Faltava um “s” em “classe” e sobrava entusiasmo em caixa alta no “MAIS”. E título, aprendi ainda menino de gráfica, não pode mancar nem gritar sem necessidade. Confesso que o insubordinado aqui deixou passar despercebido o “clase”. Talvez porque seja do tempo em que se escrevia fósforo e farmácia com “ph”. Vai ver o subconsciente resolveu colaborar com o clima retrô da ilustração e decidiu suprimir um “s” para dar mais autenticidade histórica ao conjunto.

O fato é que passei horas tentando corrigir a arte, discutindo com a inteligência artificial — que de inteligente às vezes só tem o nome — numa batalha épica por causa de uma única letra. A tecnologia evolui a passos largos, atravessa continentes em milissegundos, processa bilhões de dados, mas um “s” pode virar um imbróglio digno de editorial. Foi então que o telefone tocou. De Brasília. Do outro lado da linha, o deputado federal Geraldo Resende. Sim, ele mesmo — meu velho companheiro dos tempos da Folha de Dourados, quando éramos compositores e impressores numa gráfica artesanal que cheirava a tinta, chumbo e charuto cubano de Theodorico Luiz Viegas.

— Está faltando um “s” em “classe” — avisou, direto, como quem revisa prova tipográfica.

Cinquenta e cinco anos depois, o antigo “empastelador” das bolandeiras da gráfica agora me liga como fiscal ortográfico. Na nossa época, composição era manual, letra por letra, encaixada no componedor com paciência quase cirúrgica. Montávamos as páginas em colunas, amarrávamos tudo com barbantes e levávamos à impressora. Depois da tiragem, desmontava-se cada linha, redistribuíam-se os tipos móveis nos caxotins, cuidadosamente guardados em cavaletes de madeira. Quando o jovem Geraldo empastelava — e empastelou algumas vezes — o desastre era físico: letras espalhadas, colunas misturadas, trabalho redobrado.

Hoje o empastelamento é digital. Antes caíam tipos de chumbo no chão; agora cai um “s” na nuvem. Antes desmontava-se a página inteira; agora reabre-se o arquivo. Antes o erro sujava as mãos; agora suja a tela. Mas o princípio é o mesmo: zelar pela palavra.

Em pouco mais de meio século atravessamos uma revolução tecnológica que mudou o mundo. Do componedor ao linotipo, das máquinas composer e pestape aos computadores, e destes à inteligência artificial. Nesse intervalo, o colega compositor estudou, formou-se médico, foi vereador por dois mandatos, deputado estadual, secretário de Estado de Saúde duas vezes e agora cumpre o sexto mandato de deputado federal. O outro compositor virou o insubordinado do jornalismo. Nossos caminhos se cruzaram novamente na Uragano. Divergimos por um período, como às vezes acontece quando política e jornalismo se encontram em terreno movediço, mas a velha amizade, forjada entre tipos móveis e páginas amarradas com barbante, resistiu.

Talvez por isso tenha sido ele, lá de Brasília, quem me avisou do “s” ausente. Talvez seja a história fazendo justiça tipográfica. O empastelador de outrora hoje revisa. O insubordinado de sempre continua implicando com títulos. E brigando com a IAIA por causa de uma letra, percebendo que a tecnologia pode mudar, os cargos podem subir, os métodos podem evoluir, mas o compromisso com o vernáculo permanece artesanal.

Mas nisso tudo há uma ironia fina, coisa dos algoritmos, talvez. Foi o próprio Geraldo quem, no auge da Uragano, em 2010, cunhou o termo “para não insubordinar” (a imprensa), quando foi pego, também, em gravação clandestina, pelo o delator da Uragano, Eleandro Passaia. Assumi e mantenho título, talvez como um dos poucos ainda a sustentar a condição de insubordinado no Mato Grosso do Sul, não apenas em Dourados. A insubordinação, naquele tempo, era editorial. Hoje, curiosamente, eu e ele nos vemos diante de outra forma de rebeldia: a da própria IAIA. Isso quando dizem que a inteligência artificial faz tudo por nós. Não faz. Ela também se insubordina. Também resiste. Também não obedece exatamente como queremos. No fim, entre políticos, jornalistas e algoritmos, talvez a insubordinação seja apenas outra forma de autonomia e quem já aprendeu a compor letra por letra sabe que nenhuma máquina, por mais moderna que seja, substitui o gesto humano de alinhar ideias e assumir suas palavras.

Porque, no fim das contas, entre o chumbo e o pixel, entre o componedor e a inteligência artificial, seguimos fazendo a mesma coisa: tentando evitar que a página caia — e que a história perca um “s”.

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