Meu pai amava cozinhar — não no dia a dia, mas nos feriados e domingos, quando sempre se podia esperar algo diferente. Saía cedo e voltava com delícias para o almoço, sorriso estampado e uma certeza inabalável: em casa não podia faltar comida. E quase sempre a comida da semana era arroz com feijão.
É curioso como um prato tão simples sustentou tanta gente. Família grande, mesa cheia, conversa atravessada. O feijão ficava ali, borbulhando no fogão a lenha, temperado com alho frito, daqueles que perfumavam a casa inteira. Antes mesmo de servir, a gente já estava alimentado pelo cheiro.
Todos se serviam ali mesmo, perto do fogão. Não tinha cerimônia. A panela aberta convidava. A concha passava de mão em mão. Antes da primeira garfada, porém, havia silêncio. Meu pai, de cabeça baixa, puxava a oração simples e breve, agradecendo a Deus pelo alimento que teríamos. Era coisa rápida, mas necessária. Depois, a vida seguia — e o feijão também. E nunca faltava a banha de porco, que dava brilho, gosto e sustância à comida. Tudo simples, tudo farto.
Hoje quase não se fala mais em arroz com feijão. As mesas mudaram, os hábitos também. Inventaram moda, trocaram tradição por novidade, o básico por pressa. Muita gente deixou de comer o que sempre foi o centro do prato.
Mas lá em casa seguíamos firmes. Se não tivesse arroz com feijão, bife e batata frita, ou uma polenta com franguinho caipira e quiabo, parecia que a refeição não estava completa. Podia até haver outras coisas, mas faltava o chão, faltava o começo.
Talvez seja por isso que esse arroz com feijão seja tão saudoso. Não é só comida. É lembrança, é cuidado, é um tempo em que o pouco era suficiente e o simples dava conta de muita coisa.
Ao lembrar do feijão no fogão a lenha — o alho estalando na panela — ocorre-me que certas mudanças talvez tenham sido excessivas. Aquele prato era mais que alimento: era abrigo, era comunhão, era pertença. Havia o frango caipira, simples e inteiro, como as famílias de então.
Minha boca, indiscreta, a essa altura era um “corgo”, onde se misturavam lembranças e sabores.

