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‘Mudam-se os tempos e já não sabemos como mudam’, por Pedro Mastrobuono

Presidente da Fundação Memorial da América Latina

Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades

Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades,
Muda-se o ser, muda-se a confiança;
Todo o mundo é composto de mudança,
Tomando sempre novas qualidades.

Continuamente vemos novidades,
Diferentes em tudo da esperança;
Do mal ficam as mágoas na lembrança,
E do bem, se algum houve, as saudades.

O tempo cobre o chão de verde manto,
Que já coberto foi de neve fria,
E enfim converte em choro o doce canto.

E, afora este mudar-se cada dia,
Outra mudança faz de mor espanto:
Que não se muda já como soía.

Luís Vaz de Camões

Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades pode ser lido como epígrafe e como chave. Há poemas que não pertencem ao passado. Eles permanecem porque continuam a nos olhar quando julgamos estar olhando para eles. O soneto de Luís de Camões, escrito no século XVI, carrega essa estranha qualidade de atravessar épocas sem perder a capacidade de dizer algo essencial sobre o mundo e sobre nós mesmos. Lê-lo hoje, no Brasil contemporâneo, é uma experiência que mistura reconhecimento e inquietação.

'Mudam-se os tempos e já não sabemos como mudam', por Pedro Mastrobuono

A crítica literária, ao longo de séculos, reconheceu nesse poema um dos pontos mais altos da lírica camoniana. Inicialmente, foi lido como herdeiro do antigo motivo filosófico da mutabilidade das coisas, a ideia de que tudo no mundo está submetido à ação corrosiva do tempo. Trata-se de uma tradição que remonta ao estoicismo e ao pensamento cristão, segundo a qual a instabilidade é constitutiva da vida humana. O tempo passa, os afetos se transformam, as certezas se desfazem, e a memória se povoa de mágoas e saudades.

Mais tarde, a crítica passou a situar o soneto no contexto histórico do Renascimento tardio, marcado por desencantos profundos. A promessa de harmonia, razão e progresso, tão cara ao humanismo, começa a ruir diante das guerras, das crises políticas e das fraturas existenciais. O poema passa então a ser lido também como expressão de uma desilusão histórica, não apenas individual. Camões escreve a partir de um mundo que já não corresponde às expectativas que ele próprio havia alimentado.

No entanto, é a leitura moderna, mais recente, que talvez revele a dimensão mais perturbadora do soneto. O ponto decisivo está no seu fecho. Não basta afirmar que tudo muda. O espanto maior é outro. Muda-se, agora, a própria forma de mudar. O tempo já não obedece a ciclos reconhecíveis. A mudança deixa de ser previsível, deixa de oferecer qualquer promessa de recomposição. O mundo muda de maneira errática, desorientadora, e aquilo que antes se transformava segundo alguma lógica parece agora escapar a qualquer forma estável. Essa percepção confere ao poema uma modernidade radical, quase vertiginosa.

Do ponto de vista antropológico, essa observação é crucial. As sociedades não vivem apenas de mudança. Elas precisam de continuidade simbólica, de pactos minimamente compartilhados, de instituições que ofereçam alguma estabilidade narrativa. Quando a mudança se acelera a ponto de perder forma, instala-se um mal-estar profundo. A confiança se rompe, os vínculos se fragilizam, e a vida coletiva passa a ser atravessada por sentimentos difusos de insegurança e perda de sentido.

É impossível ler esse soneto hoje sem estabelecer um diálogo com o momento histórico brasileiro. Vivemos uma sociedade intensamente polarizada, na qual o espaço comum da linguagem foi corroído. As instituições, mais do que pressionadas, encontram-se simbolicamente desgastadas. O debate público se empobreceu, e a ideia de futuro compartilhado parece cada vez mais distante. Para aqueles que já viveram outros ciclos históricos, outras promessas e outras frustrações, a experiência do presente torna-se particularmente complexa. Há uma sensação de exaustão diante de um tempo que muda sem oferecer horizonte.

Nesse contexto, Camões não surge como explicação, mas como espelho. O passado não nos consola, mas nos ajuda a nomear aquilo que estamos vivendo. O soneto revela que há momentos históricos em que a própria mudança deixa de ser regeneradora e passa a ser fonte de espanto e desorientação. É precisamente isso que o torna tão atual.

Falo aqui também como poeta. Retorno ao soneto não por apego formal ou nostalgia estética, mas porque ele oferece uma arquitetura capaz de conter o excesso do mundo. Escrever sonetos é, para mim, uma forma de revisitar sentimentos, perplexidades e intuições, tentando racionalizá-los sem empobrecê-los. A poesia funciona como instrumento de elaboração da experiência, quase como um gesto antropológico. Ela transforma inquietação em pensamento e devolve forma ao que ameaça se dissolver.

Talvez seja por isso que certos textos atravessam os séculos. Não porque tragam respostas definitivas, mas porque permanecem capazes de formular perguntas verdadeiras. A atualidade de Camões não reside na sua época, mas na sua lucidez. Em tempos em que tudo muda e já não sabemos como mudam as coisas, o clássico reaparece não como ornamento, mas como linguagem possível para pensar o presente.

No ensaio, Pedro Mastrobuono não se limita a interpretar Camões: pensa com ele. Ao recusar a leitura escolar do soneto como simples lamento sobre a fugacidade do tempo, desloca-o para uma reflexão mais radical — a crise da própria inteligibilidade da mudança. Ao eleger “Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades” como chave hermenêutica, Mastrobuono transforma o poema de documento histórico em dispositivo crítico do presente. Sua leitura articula com precisão o motivo filosófico da mutabilidade, o desencanto do Renascimento tardio e a leitura moderna centrada no verso final, onde a mudança já não obedece a formas reconhecíveis. O ensaio amplia, assim, o alcance do soneto para o plano antropológico e civilizacional, incorporando com sobriedade o Brasil contemporâneo e uma perspectiva geracional. Ao falar também como poeta, Pedro Mastrobuono reafirma a poesia como arquitetura simbólica capaz de conter o excesso do mundo e devolver forma ao que ameaça se dissolver, conferindo ao clássico uma atualidade viva e exigente. Ana Maria Bernardelli – poeta, escritora, ensaísta, crítica literária;

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