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Dormir virou luxo: quem consegue 8 horas por noite faz parte de minoria privilegiada

Dormir oito horas por noite virou quase um mito urbano. Algo que todo mundo já ouviu falar, sabe que faz bem, mas raramente vê acontecendo na vida real. Na prática, dormir direito passou a ser um luxo moderno — disputado, desejado e cada vez mais inacessível.

Os números confirmam essa sensação coletiva de cansaço. De acordo com levantamentos do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), o brasileiro dorme, em média, menos de sete horas por noite. Em grandes centros urbanos, esse tempo costuma cair ainda mais. Pesquisas de institutos de saúde e de medicina do sono indicam que cerca de 60% da população adulta relata dormir mal ou acordar cansada com frequência.

Não se trata apenas de quantidade, mas de qualidade. Especialistas apontam que interrupções constantes do sono, dificuldade para pegar no sono e despertares noturnos são hoje queixas comuns. O motivo não é mistério: rotina acelerada, pressão no trabalho, excesso de telas, preocupação financeira e uma sensação constante de urgência que não desliga nem quando o corpo deita.

O celular, aliás, virou um dos maiores inimigos do travesseiro. Estudos mostram que a luz azul emitida por telas inibe a produção de melatonina, o hormônio responsável por regular o sono. O resultado é conhecido: a pessoa deita cansada, mas o cérebro segue ligado, rolando a tela, respondendo mensagens, consumindo notícias ou redes sociais. Quando percebe, já passou da meia-noite — e o despertador continua programado para cedo.

O impacto desse déficit de sono vai muito além do mau humor matinal. Dormir pouco afeta a memória, a concentração, a capacidade de tomar decisões e o sistema imunológico. Há evidências consistentes de que a privação crônica de sono está associada ao aumento do risco de doenças cardiovasculares, diabetes, obesidade, ansiedade e depressão. Em outras palavras: o corpo cobra a conta.

Mesmo assim, dormir pouco ainda é tratado, em muitos ambientes, como sinal de produtividade ou resistência. “Durmo só quatro horas por noite” costuma ser dito quase como um troféu. O problema é que o organismo não funciona à base de heroísmo. Ele precisa de descanso — regular, profundo e suficiente.

O mercado de trabalho tem papel central nessa equação. Jornadas extensas, deslocamentos longos, mensagens fora do horário e a dificuldade de separar vida pessoal e profissional criaram uma geração permanentemente cansada. Dados de pesquisas sobre saúde ocupacional indicam que o estresse relacionado ao trabalho é hoje um dos principais fatores associados a distúrbios do sono no Brasil.

Some-se a isso a insegurança financeira. Milhões de brasileiros convivem com dívidas, instabilidade de renda e medo do futuro. A cabeça não desliga porque o problema não dorme. O sono, que deveria ser reparador, vira mais um espaço de negociação mental.

Há ainda um paradoxo curioso: nunca se falou tanto sobre bem-estar, autocuidado e saúde mental, mas nunca se dormiu tão mal. Aplicativos monitoram o sono, relógios contam minutos dormidos, podcasts ensinam a relaxar — e, ainda assim, o descanso segue escasso. Talvez porque, no fundo, o problema não seja falta de informação, mas excesso de exigência.

Dormir bem exige tempo, rotina e limites. Exige dizer não a compromissos, desligar notificações, aceitar que o dia acabou. E isso, hoje, parece quase um ato de rebeldia.

Por isso, quem consegue dormir oito horas por noite virou exceção estatística. É alguém que conseguiu organizar a vida de modo a proteger algo básico: o próprio corpo. Não é preguiça, não é privilégio vazio — é sobrevivência.

Talvez o verdadeiro luxo do século XXI não seja viajar mais, comprar mais ou produzir mais. Seja simplesmente deitar, apagar a luz, fechar os olhos e acordar no dia seguinte com a sensação cada vez mais rara de estar, finalmente, descansado.

(Informações R7)

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