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‘Cidade que aprende a respirar debaixo d’Água’, por João Roberto Giacomini

Por João Roberto Giacomini, advogado e cronista

Aprendi a relaxar sentado no banco do carro, motor desligado, esperando a água baixar. Não foi um curso, nem uma decisão madura. Foi uma adaptação silenciosa, dessas que a gente só percebe quando já está em curso. Os vidros já não embaçam como outrora.

A cidade, premiada por enchentes e buracos do tamanho de crateras — com placa, foto oficial e sorriso institucional — nos educou assim. Primeiro, sempre cai mais água do que escoa. Depois, o espanto de ver algumas bocas de lobo devolvendo água e lixo ao mesmo tempo. Por fim, o tempo livre. O socorro é por um relaxamento que não se conquista, não se encontra.

No início, eu lutava contra o relógio. Batia no volante, calculava rotas alternativas, xingava mapas que insistiam em me mandar por ruas que já não existiam, apenas se lembravam de si mesmas. Hoje, observo. A água avança com método. O buraco se aprofunda com paciência, pois o asfalto frio colocado no último “tapa-buraco” não resistirá. O tempo, ali, não corre: mede, pois as mudas de buracos deixadas na última operação já floresceram.

Aprendi pequenos rituais. O ar-condicionado ligado. O vidro entreaberto para ouvir a cidade respirando — um respirar pesado, de quem carrega água demais nos pulmões. A playlist baixa, não por respeito, mas porque a estática combina melhor com a paisagem.

Às vezes, um pedestre atravessa a rua como quem testa a própria memória. Para no meio, hesita, retorna. Não é medo da água: é dúvida sobre onde o asfalto costumava estar. A cidade nos ensinou isso também — a desconfiar do chão sendo óbvio que a água vai ultrapassar a canela.

Relaxar, aqui, não é ausência de tensão. É convivência. Um acordo tácito com o atraso, com a roupa que não seca, com o compromisso que vira hipótese. Ganhamos tempo para pensar em nada específico. Perdemos a ideia de chegar inteiro e seco. Chegamos molhado, nosso carro chega com suspensão destruída e pneus cortados.

Lembro vagamente de quando relaxar significava escolher. Escolher parar, escolher o silêncio, escolher não fazer. Hoje, relaxar acontece enquanto se espera o guincho, enquanto se recalcula a semana, enquanto se aceita que certas decisões passadas — votar, construir, ignorar — voltam em forma líquida.

Não idealizo o antes. Ele também tinha pressa demais. Mas havia chão. Isso faz diferença quando se tenta descansar o peso do corpo.

Quando a água baixa, ninguém comemora. Apenas as empreiteiras que vão passar uma lamazinha fria nos buracos. Ligamos o motor com cuidado, como quem não quer acordar algo. Seguimos devagar, desviando do que ficou. A cidade permanece ali, aprendendo outra lição.

Eu também. Ainda sentado. Ainda esperando. Ainda relaxando do único jeito possível.

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