Por João Roberto Giacomini, advogado e cronista
Houve um tempo em que fazer justiça exigia sapato confortável.
E paciência.
O advogado chegava cedo, pegava senha, cumprimentava o servidor pelo nome — ou, ao menos, pelo rosto — e aguardava. A fila andava devagar, mas andava. Entre um processo e outro, trocava-se um comentário sobre o calor, o futebol, a vida. Às vezes, resolvia-se mais no corredor do que no protocolo.
Então veio a internet.
E, com ela, o silêncio eficiente.
Hoje, a justiça cabe inteira dentro de um computador. Peticiona-se de pijama, despacha-se por tela, recorre-se sem sair da cadeira confortável. As filas presenciais nos cartórios praticamente desapareceram. Tudo virou sistema, tudo virou procedimento eletrônico. O papel sumiu. O carimbo virou um ícone. Ganhamos tempo, economizamos sola de sapato e salvamos algumas árvores. É justo reconhecer: foi um avanço.
Nunca foi tão rápido protocolar um pedido. Nunca foi tão fácil acompanhar um processo. Nunca foi tão simples acessar decisões, prazos e andamentos — especialmente para os jovens advogados, antenados desde cedo com a tecnologia. Para outros, porém, o caminho foi menos intuitivo: primeiro vieram as digitalizações; depois, os tipos de arquivos, os limites de tamanho, a internet lenta, o PDF, o JPEG e afins. Para muitos profissionais experientes na advocacia, mas não necessariamente na tecnologia, foi um susto.
A tecnologia trouxe organização, previsibilidade e uma certa democracia — todos entram pela mesma porta digital, sem empurrões. Não me proponho, aqui, a analisar a eficácia dos procedimentos ou se houve melhora na efetividade dos processos; cada um carrega sua própria experiência. Mas toda facilidade cobra um preço.
E ele não vem em boleto.
Vem em ausência.
Aos poucos, o balcão desapareceu. O “bom dia, doutor” virou um e-mail automático. O servidor, antes pessoa, virou setor.
O despacho — aquele momento quase artesanal, em que se explicava o caso olhando nos olhos — virou link. Quando virou hábito, ganhou outro nome: despacho virtual.
E, sem perceber, passamos a conversar com a Justiça como quem dialoga com um aplicativo. Há resposta, mas não há conversa: informa-se que o pedido foi encaminhado ao setor responsável. O que era urgente transforma-se em mais um número na fila do CPD.
Não é nostalgia barata.
É constatação humana.
A Justiça não é só decisão. É relação. É escuta. É linguagem corporal. É perceber que, por trás do processo, há um drama que não cabe inteiro em PDF. O sistema entende petições. Pessoas entendem pessoas.
A internet agilizou, mas também afastou. Aproximou o processo, distanciou o profissional. Tornou tudo mais rápido — e, curiosamente, mais frio. A Justiça pode ter ficado eficiente sob esse aspecto, mas também um pouco solitária.
Seria isso desumanização?
Ou apenas a adaptação inevitável ao tempo?
Talvez seja as duas coisas ao mesmo tempo. Avanço e perda caminham juntos, como quase tudo que nos promete conforto. A tecnologia não é vilã nem heroína. É ferramenta. E ferramentas dependem de quem as usa.
O perigo não está no peticionamento eletrônico, mas em esquecer que ele serve a pessoas. Não está no despacho virtual, mas em transformar o juiz num ícone inacessível e o advogado num número de protocolo.
A Justiça não pode entrar em modo avião.
Ela precisa continuar conectada — não só à internet, mas à humanidade.
Que fiquem os sistemas, os atalhos, as facilidades.
Mas que não se percam o diálogo, o respeito, o olhar.
Porque processo se resolve por sistema.
Mas Justiça mesmo só existe quando é humanizada, feita por gente — nunca em modo avião.
“A Justiça é feita por homens; enquanto forem homens, será humana.”
— Piero Calamandrei – (1889–1956) foi um dos grandes juristas do século XX, especialmente no Direito Processual Civil e no pensamento constitucional.

