Sandro Omar de Oliveira Santos (*) –
Os dados mais recentes sobre o perfil socioeconômico de Campo Grande desmontam, um a um, os argumentos usados para justificar o aumento do IPTU e da taxa de coleta de lixo. Ainda que esses aumentos fossem justificáveis, e não são, é impossível ignorar o fato central: o problema da cidade não é falta de dinheiro. É falta de gestão.
Pode-se entregar os cofres de Maricá à atual administração que, ainda assim, não seria suficiente.
Em 2025, justamente no ano em que a prefeita avilta o cadastro imobiliário, os aluguéis residenciais caíram 4,36% na capital. O mercado imobiliário costuma ser um termômetro confiável da realidade econômica. A queda no valor dos aluguéis envia um recado inequívoco: os imóveis estão perdendo valor relativo e as famílias chegaram ao limite da sua capacidade de pagamento.
Em qualquer administração minimamente responsável, esse cenário exigiria cautela fiscal, revisão de prioridades e controle de gastos. Mas a gestão da prefeita Adriane Lopes escolheu o caminho oposto.
Em vez de ajustar despesas, melhorar eficiência e enfrentar gargalos administrativos, optou por transformar o IPTU e a taxa do lixo em instrumentos emergenciais de caixa. Não houve diálogo consistente com a sociedade nem transparência adequada sobre os critérios técnicos supostamente adotados. O que houve foi aumento de carga tributária, especialmente sobre quem vive nas regiões mais vulneráveis da cidade.
Corre pela cidade, inclusive, a informação de que a residência da prefeita foi uma das poucas a sofrer desvalorização e ter o IPTU reduzido. Se for verdade, o episódio simboliza com perfeição a assimetria do modelo adotado.
A chamada atualização do IPTU não se limitou a um reajuste. Houve manipulação da base de cálculo do valor venal dos imóveis, inflando artificialmente avaliações, reduzindo isenções legais e empurrando imóveis populares para faixas de tributação mais elevadas. Na prática, bairros periféricos passaram a pagar como se fossem valorizados no papel, embora continuem negligenciados na realidade.
A elevação da taxa de coleta de lixo segue a mesma lógica. O aumento não decorre de melhoria do serviço, mas da necessidade de garantir a remuneração de um consórcio privado cuja concessão a Prefeitura não consegue sustentar com o orçamento regular. O risco de uma má modelagem foi transferido diretamente para o bolso do contribuinte.
Nesse contexto, merece destaque o papel exercido pela maioria dos vereadores da Câmara Municipal de Campo Grande. Ao tentar barrar os efeitos mais perversos desse pacote arrecadatório, o Legislativo cumpriu sua função institucional de contenção dos excessos do Executivo. E é preciso registrar a coragem política dos vereadores que compareceram à sessão e votaram contra o que, na prática, se configura como um confisco disfarçado.
Em um ambiente de forte pressão política e narrativa oficial intimidatória, esses parlamentares assumiram o ônus de contrariar o poder de plantão. Outros preferiram não comparecer e alguns optaram pela comodidade do cafezinho quente no Paço.
O resultado da má gestão está à vista. A cidade não arrecada mal; ela gasta mal. Por isso falta dinheiro para manutenção das vias públicas, a saúde enfrenta falhas recorrentes e a assistência social vive sobrecarregada. Chove, as ruas cedem; postos de saúde que já carecem de medicamentos são alagados; a periferia expõe, diariamente, as falhas sistêmicas da política urbana, com ocupações de famílias que simplesmente não têm onde morar.
Não se trata de ser contra impostos ou defender irresponsabilidade fiscal. Trata-se de exigir racionalidade. Tributo não pode ser instrumento para encobrir erro administrativo. Justiça fiscal não se faz premiando a população com buracos novos a cada chuva.
Esse é o paradoxo perigoso da atual gestão da capital: cobra mais, entrega menos e ainda chama isso de modernização tributária.
A Prefeitura não pode transferir o custo da sua ineficiência para a população. A conta da dipirona que falta no posto de saúde não pode continuar chegando sempre ao mesmo endereço: o do contribuinte comum, que paga mais IPTU, enfrenta ruas piores e recebe serviços cada vez mais precários.
Campo Grande precisa de planejamento, prioridade e eficiência. Arrecadar mais sem governar melhor não resolve. Apenas adia o problema e aprofunda a desigualdade urbana.
(*) É advogado, engenheiro civil e mestre em Letras

