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Articulação de Vander, Camila e Gleice ‘deu água’: obras de superpoços na Reserva Indígena vão começar

Ainda não está claro quem será responsável pela gestão e manutenção do sistema após a construção dos superpoços — se União, Estado, municípios de Dourados e Itaporã, ou a concessionária Sanesul

Redação –

A falta de água potável na Reserva Indígena de Dourados, que abriga as aldeias Jaguapiru e Bororó, é um problema antigo e estrutural, diretamente ligado ao crescimento populacional acelerado e à ausência histórica de investimentos contínuos em infraestrutura básica. A avaliação é da liderança indígena Cris Terena, em entrevista à Folha de Dourados, na qual detalha o histórico da crise e as incertezas que ainda preocupam a comunidade.

Cris Terena, que é assessora da deputada estadual Gleice Jane (PT), esteve na Redação da Folha para anunciar a aguardada assinatura da ordem de serviço de dois superpoços na Reserva Indígena, que irão captar água do Aquífero Guarani a cerca de 650 metros de profundidade. O ato com a presença do governador em exercício José Carlos Barbosa (Barbosinha) será nesta sexta-feira (16), em solenidade marcada para às 9h30, na sede regional da Sanesul.

Segundo Cris, o problema se agravou de forma significativa na última década. “A população praticamente triplicou nos últimos dez anos, mas a ampliação das redes de água e a perfuração de novos poços não acompanharam esse crescimento”, explica. O resultado é que a escassez, que antes era mais sentida em períodos de estiagem, passou a ser permanente, afetando residências, serviços públicos e até escolas.

“a ampliação das redes de água e a perfuração de novos poços não acompanharam esse crescimento”

Atualmente, pelo menos duas grandes escolas da reserva — entre elas a Escola Tengatui e a Escola Estadual Guateka — dependem exclusivamente da água da rede antiga, sem poços próprios. Juntas, atendem mais de mil alunos. Há locais onde a água simplesmente não chega há mais de um ano. “Tem torneira que enferrujou porque nunca saiu uma gota de água”, relata.

Rede antiga e crescimento sem planejamento

A infraestrutura de abastecimento existente é considerada obsoleta. De acordo com as lideranças, a última grande intervenção na rede ocorreu por volta de 2012. Desde então, apenas reparos paliativos foram feitos. Vazamentos, perda de pressão e falhas constantes são apontados como causas do desperdício e da falta de abastecimento, mesmo em áreas próximas a poços com boa vazão.

Além disso, o avanço de empreendimentos imobiliários de alto padrão no entorno da reserva intensificou o sentimento de desigualdade. Enquanto comunidades indígenas enfrentam escassez extrema, condomínios vizinhos avançam com grandes construções e pleno acesso à água. “Isso gerou revolta. Do lado de cá, famílias sem água; do outro, superconstruções avançando”, resume Cris Terena.

“Isso gerou revolta. Do lado de cá, famílias sem água; do outro, superconstruções avançando”

Mobilização popular e protagonismo das mulheres

A exclusão da Reserva Indígena do projeto de abastecimento hídrico da Itaipu Binacional foi o estopim para uma ampla mobilização comunitária. Diante da frustração, indígenas foram às ruas para exigir inclusão e denunciar o abandono histórico. O movimento, no entanto, enfrentou repressão policial, com uso de balas de borracha e feridos, incluindo mulheres, idosos e crianças.

Nesse processo, o protagonismo feminino foi decisivo. Mulheres das aldeias Jaguapiru e Bororó estiveram à frente das mobilizações, denunciando que a falta de água atinge diretamente a dignidade, a saúde e o cuidado com as famílias. “São as mulheres que mais sofrem com a falta de água, porque são elas que sustentam a vida cotidiana”, afirma Cris.

“São as mulheres que mais sofrem com a falta de água, porque são elas que sustentam a vida cotidiana”

Medidas emergenciais, paliativas e estruturais

Como resultado da mobilização, ações foram conquistadas em diferentes prazos. De forma imediata, houve a distribuição de caminhões-pipa e cerca de 300 caixas d’água, além de tentativas de firmar um Termo de Ajustamento de Conduta (TAC) entre as prefeituras de Dourados e Itaporã e a Sesai para fornecimento regular de água.

A médio prazo, foram perfurados seis poços — dois pelo Governo do Estado e quatro pelo Governo Federal. Um deles não teve êxito, restando cinco poços em operação. Apesar da boa vazão, a falta de água persiste, o que reforça a suspeita de falhas graves na rede de distribuição.

Já nas áreas de retomada, onde a situação é ainda mais crítica, a própria comunidade perfurou poços caseiros. Posteriormente, com recursos conquistados, mais de 20 poços pequenos foram perfurados, atendendo grupos de oito a dez famílias. Ainda assim, o abastecimento segue precário.

Superpoços: conquista política

A principal ação de longo prazo é a construção de dois superpoços e rede de distribuição d’água, com investimento estimado em R$ 48,7 milhões. Os recursos federais foram viabilizados por meio de articulação da bancada federal de Mato Grosso do Sul, com protagonismo dos deputados federais Camila Jara (PT) e Vander Loubet (PT), que conseguiram sensibilizar e convencer os demais parlamentares do Estado sobre a urgência do projeto.

A deputada estadual Gleice Jane (PT) também teve papel de destaque nesse processo, ao ir a Brasília e, junto com os parlamentares do PT, atuar diretamente na articulação política para garantir apoio de deputados de outras siglas. Segundo Cris Terena, a presença e a atuação conjunta foram fundamentais para destravar o projeto.

“O recurso só veio porque houve mobilização da comunidade e articulação política. Foi a nossa luta que resultou nisso”, reforça.

“O recurso só veio porque houve mobilização da comunidade e articulação política. Foi a nossa luta que resultou nisso”, reforça.

Falta de diálogo e temor sobre cobrança de tarifas

Apesar do anúncio e da iminente assinatura para início das obras, persistem dúvidas que preocupam a comunidade. Não está claro quem será responsável pela gestão e manutenção do sistema após a construção dos superpoços — se União, Estado, municípios ou a concessionária Sanesul, responsável pelo projeto técnico.

Outra preocupação central é a possível cobrança de tarifa de água. Em reuniões anteriores, teria sido ventilada a ideia de garantir gratuitamente apenas um volume mínimo para consumo humano, com cobrança sobre o excedente. Para uma população em situação de vulnerabilidade socioeconômica, a medida gera insegurança.

“Já pagamos contas de energia altíssimas. Imaginar pagar pela água assusta muito”, afirma Cris. Também não está definido se haverá hidrômetros por residência ou por região, nem como serão tratados casos de vazamento em uma rede antiga e deteriorada.

“Já pagamos contas de energia altíssimas. Imaginar pagar pela água assusta muito”, afirma Cris.

Expectativa, cautela e vigilância

Embora reconheça a importância do investimento, a liderança indígena ressalta que o processo carece de mais transparência e diálogo. “As decisões estão sendo tomadas sem conversa com a comunidade. Tudo está muito nebuloso”, diz.

Enquanto isso, o abastecimento emergencial por caminhões-pipa deve continuar até que o sistema esteja plenamente operacional — sem prazo definido para conclusão.

“As decisões estão sendo tomadas sem conversa com a comunidade. Tudo está muito nebuloso”

Nota do Coletivo de Mulheres Indígenas de Dourados

Falamos aqui em nome do Coletivo de Mulheres Indígenas de Dourados, trazendo a voz de quem sustenta a vida todos os dias dentro das aldeias. A crise da água que enfrentamos não é apenas uma dificuldade cotidiana; ela é o retrato do abandono histórico e da falta de prioridade dada aos povos indígenas nas políticas públicas.

Essa realidade só começou a ser minimamente enxergada porque nós, mulheres, jovens e homens, tivemos que passar por um duro processo de luta, enfrentando repressão, polícia e balas de borracha para que nossas vozes fossem ouvidas e nossas necessidades finalmente fossem consideradas. Nesse processo, várias pessoas foram feridas — idosos, crianças e mulheres — mostrando que o direito à água, algo básico para a vida, nos foi negado por muito tempo e só ganhou atenção diante do sofrimento do nosso povo.

O anúncio do chamado ‘super poço’, feito pelos governos federal e estadual, gera expectativa, mas também nos obriga a refletir: quantas promessas já foram feitas e quantas, de fato, se transformaram em direitos garantidos? Para nós, a água não pode ser tratada como favor, nem como obra de propaganda. Ela precisa ser política de Estado, contínua, permanente e com responsabilidade.

As mulheres indígenas sabem, na prática, que sem água não há saúde, não há alimentação, não há cuidado com as crianças, não há dignidade. Por isso, esperamos que esse projeto seja executado com seriedade, transparência e participação direta das comunidades, e não como mais uma ação emergencial que se perde com o tempo.
Nossa expectativa é que o ‘super poço’ simbolize uma mudança real de postura do poder público: sair do discurso e ir para a prática, sair da promessa e garantir direitos.

Que represente um compromisso verdadeiro com o bem viver dos povos indígenas, reconhecendo que investir em água é investir em vida, em justiça social e em respeito à nossa existência.

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