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A última entrevista de Theodorico Luiz Viegas, o fundador da Folha de Dourados

Ele faleceu ontem, aos 77 anos, vítima de insuficiência respiratória. Foi enterrado no final da tarde no Cemitério Santo Antônio de Pádua

LUTO – 23/07/2009

Entrevista
Theodorico Luiz Viegas
O jornalista preso por discordar do governador
 
Em pleno regime militar o fundador da folha de dourados, Theodorico Luiz Viegas, ousou rejeitar, em nome do povo de Dourados, “um presente” do então governador José Fragelli: a penitenciária de segurança máxima. Ficou detido sete dias em Ponta Porã, de onde voltou com a cabeça raspada
 
José Henrique Marques (*)
                         No dia 15 de agosto de 2007, o jornalista Theodorico Luiz Viegas, que faleceu na quarta-feirra (22) à noite em Dourados aos 77 anos, vítima de insuficiência respiratória, concedeu aquela que seria sua última entrevista, publicada na versão impressa do jornal em 19 de agosto daquele ano. Leia a seguir a entrevista na íntegra do fundador da Folha de Dourados:
 
                        O veterano jornalista Theodorico Luiz Viegas é uma daquelas personalidades amável e extremamente envolvente. Tem 50 anos de serviços jornalísticos prestados à sociedade douradense. Nascido em Dourados em 27 de setembro de 1931, na Cabeceira Alegre, antigo reduto rural da família Viegas, plantou mandioca, foi caminhoneiro e taxista. Em 1953, aos 22 anos foi aventurar-se no Rio de Janeiro, onde permaneceu por quatros anos trabalhando no Laboratório Oliveira Júnior, como vendedor de remédios, revelando-se um hábil comunicador em suas andanças pelas capitais brasileiras.
            Em 1957, de volta à sua terra natal e inspirado naquilo que aprendeu no Rio de Janeiro, Theodorico abriu a Distribuidora Mato-Grossense de Publicidade, cujo carro chefe era um serviço de alto falante com projetores de som instalados na Marcelino Pires. Trabalhou em O Progresso e foi representante e correspondente de alguns dos principais jornais de MS e do país, como o Correio do Estado, Folha de S. Paulo, O Estado de São Paulo e o Diário de São Paulo.
 Em 1968, para garantir a publicação daquilo que achava pertinente, fundou a  folha de dourados. Em 2006, depois de 36 anos, vendeu o jornal aos atuais diretores. “Está em boas mãos”, garantiu.
            Theodorico Luiz Viegas empregou e ensinou muitos dos principais jornalistas e radialistas sul-mato-grossenses, como Oscar Ramos Gaspar, Albino Mendes, Lucimar Couto, Cícero Faria, Valfrido Sul e Antonio Viegas. Também trabalhou com ele o médico e deputado federal Geraldo Resende e o saudoso Cedar Montiel, o Nhô Tito.
            É divorciado e pai de Julia Cristina, Denise, Jussara, Francisco, Monique, Lídia e Amanda. Tem oito netos (hoje são dez). Atualmente é funcionário da Câmara Municipal de Dourados e tem uma banca de revistas na avenida Joaquim Teixeira Alves, em frente a Famaq.
            Nesta edição especial da  folha de dourados concedeu entrevista exclusiva, onde fala da convivência com o regime militar, da censura, de sua prisão de sete dias, em 1974,  em Ponta Porã por discordar da construção da penitenciária de segurança máxima, das dificuldades de se fazer um jornal e a concorrência das emissoras de rádio e televisão e da Internet. “O jornal impresso não acaba tão cedo assim; mas não existem mais jornais diários e sim do dia seguinte”, pondera. A seguir, os principais trechos da entrevista.
 
JHM – Como o senhor descobriu seu dom para a comunicação?
Theodorico – Trabalhei na roça, plantei mandioca, fui motorista de táxi e de caminhão, inclusive, puxei areia para o Vitório Fedrizzi que tocou uma reforma da Praça Antônio João. Depois, aos 22 anos, fui me aventurar no Rio de Janeiro e trabalhei como vendedor de remédios no Laboratório Oliveira Júnior. Vendi em todas as capitais brasileiras e me comunicava bem, daí surgiu à idéia de voltar a Dourados e criar, em 1957, a Distribuidora Mato-Grossense de Publicidade.
 
JHM – Distribuidora de Publicidade?
Theodorico – Exatamente. Eu também passei a representar o Correio do Estado, a Folha de S. Paulo, o Estadão, o Diário de São Paulo. Mas a principal atividade da empresa era o serviço de alto falante. Instalei projetores de som com quatro cornetas cada, na avenida Marcelino Pires, entre as ruas Melvin Jones e Camilo Ermelindo da Silva, como são conhecias hoje. Também fui o primeiro a ter um carro de publicidade volante na cidade, um Jipe DKV. Ganhei muito dinheiro.
 
JHM – Quem trabalhou com o senhor na Distribuidora?
Theodorico – Faz tanto tempo, mas me recordo agora do Merlinton Braff, do Cedar Montiel, Davidson Marques e Ismael Marques. Onze anos depois, fundei o jornal.
 
JHM – Onde foi a primeira sede da ‘folha de dourados’?
Theodorico – Na avenida Marcelino Pires, onde hoje é a Riachuelo, bem no coração de Dourados.
 
JHM – Por que a caixa baixa, ou seja, letras minúsculas nas iniciais do jornal?
Theodorico – Para ser diferente, chamar a atenção. E é assim que o jornal está registrado no INPI, marca que agora é sua e de seus sócios.
 
JHM – Na época, em 1968, Dourados era uma cidade pequena e já existia o jornal O Progresso. Por que criar a ‘folha de dourados’?
Theodorico – Apenas para garantir a publicação daquilo que eu achava correto, que era o certo e os outros jornais não publicavam.
 
JHM – Como reagiu a concorrência e a sociedade?
Theodorico – Foi tranqüila. Os leitores, principalmente, acharam excelente a minha iniciativa, porque já me conhecia e sabiam que seria publicado tudo que aconteceria na cidade, com informação correta e justa.
 
JHM – Certo, mas o senhor saiu de O Progresso e fundou seu próprio jornal. Como ficou seu relacionamento o Weimar Torres?
Theodorico – O Weimar era um ser humano muito especial. Nosso relacionamento continuou de alto nível. Ele colaborou e deu todo o apoio possível à folha de dourados.
 
JHM – Dourados tinha quantos jornalistas?
Theodorico – Não tinha. Só o Armando Carmelo que era professor e legalmente registrado. Logo após veio o João Rico. Só apareceu mais gente da área em meados da década de 70 e pouco depois o Congresso criou legislação específica e regularizou a situação do pessoal, inclusive, a minha.
 
JHM – A folha fez escola. Cite alguns dos profissionais de imprensa que começaram ou trabalharam com o senhor nos velhos tempos.
Theodorico – Não me lembro de todos, mas o Valfrido Silva, Oscar Ramos Gaspar,  Hedio Fasan, Antonio Viegas, Cícero Faria, Moacir, Albino Mendes, Lucimar Couto.
 
JHM – Naqueles tempos era complicado fazer jornal…
Theodorico – Ah, não era fácil. O jornal era impresso página por página, por composição e nós tínhamos que juntar letra por letra. Depois a matéria era montada linha por linha. Era preciso imprimir de um lado, depois do outro, dobrar o papel, imprimir novamente a outra página até completar a edição.
 
JHM – No início, qual era a tiragem da ‘folha de dourados’?
Theodorico – Nas primeiras edições a tiragem semanal era de 500 exemplares. Depois de dois anos aumentamos um pouco para atender Caarapó e Glória de Dourados, que pertenciam a Dourados. A tiragem máxima aconteceu em meados da década de 70, de dois mil exemplares quando o jornal passou a ser diário. 
 
JHM – O senhor fundou  o jornal no auge da ditadura militar. Como foi conviver com os repressores?
Theodorico – No início não tive problemas, porque me precavia. Eu trabalhava para a Folha de S. Paulo e percebia que não adiantava mexer muito na coisa, porque não iria ser publicado mesmo. Até a população sabia disso.
 
JHM – Então, mesmo aqui em Dourados, havia censura à imprensa?
Theodorico – Os jornais só circulavam com visto do delegado. O Progresso levava os originais para serem revisados pela polícia. Eu mandava o jornal impresso e dava um prazo para eles, de uma ou duas horas. Não levava os originais e dizia que se levasse prejuízo eu iria recorrer e eles teriam que pagar a impressão. Quem eram eles para dizer o que podia ou não podia ser publicado se o jornal era meu. Geralmente um policial analfabeto colocava o “dedão” lá, colocava o nome dele e dava uma declaração da revisão.
 
JHM – Por falar em delegado conte a história de sua prisão em 1974.
Theodorico – Certo dia o então governador de Mato Grosso, José Fragelli, disse que iria dar um grande presente para Dourados: construir a penitenciária de segurança máxima. Achei um absurdo, escrevi e publiquei no jornal que Dourados precisa de universidade, escolas, enfim, e que ele deveria construir esse “grande benefício” em Rio Brilhante, onde tinha fazenda, ou em Aquidauana, onde nascerá.
 
JHM – Mas, isso passou pelo crivo da censura?
Theodorico – Passou. Mas, certo dia fui intimado, certamente a mando de Fragelli, para prestar depoimento ao delegado Nelson Salomão Saigalle para me explicar. Não baixei a bola e me impus como jornalista alertando-o de que buscaria meus direitos. No calor da discussão ele se enfureceu, me agrediu, revidei e o bicho pegou, no soco mesmo.
 
JHM – E aí, prenderam o senhor?
Teodorico – Pois é, fui preso e depois transferido para Ponta Porã, com alegação de que lá, ficaria sobre a proteção do exército, do 11° BCMec. Para me castigar, fique sete dias preso e rasparam minha cabeça.
 
JHM – Quais as diferenças mais relevantes entre o jornalismo atual e de 40 anos atrás?
Teodorico – Antigamente tínhamos que correr mesmo atrás da notícia. Hoje, com a Internet as notícias, inclusive as boas, estão abundantes. A Comunicação anda fabulosa, mas antes a qualidade era melhor, o trabalho era mais sério e objetivo. Seriedade é uma palavra chave no jornalismo.
JHM – O senhor avalia que o jornalismo impresso está com os dias contados, em virtude do surgimento da Internet e do avanço tecnológico nas emissoras de rádio e televisão?
Theodorico – Na minha avaliação o jornal impresso não acabará tão fácil assim. Mas com jornalismo de qualidade, sério, que se transforma num documento, numa certidão de nascimento. A Internet é uma ferramenta importante com a velocidade que dá nas notícias. O radiojornalismo e telejornalismo melhorarão bastante, mas creio que há espaço para todas essas  mídias por um bom tempo.
 
JHM – Para finalizar, o senhor concorda que na era da informática não existem mais jornais diários?

Fonte: Folha de Dourados

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