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‘Gaúchos, esses empreendedores’, por Waldir Guerra

'Gaúchos, esses empreendedores', por Waldir Guerra

Opinião – 10/08/2009

                                                               Waldir Guerra  
         Ao acompanhar as idas e vindas na tentativa da Fundação Nacional dos Índios, FUNAI, em demarcar as terras dos produtores rurais de Mato Grosso do Sul para entregá-las aos índios passei a ter maior consideração por aqueles que tanto trabalharam para construir o patrimônio que agora estão ameaçados de perder. 
         A observação não é  minha, mas de um jovem advogado ao comparar a vida dos migrantes gaúchos por esse Brasil afora, com a vida atribulada dos judeus pelo mundo inteiro. 
         Ao dizer que via certa analogia entre a vida de judeus e a dos gaúchos, naturalmente estava se referindo a todos aqueles empreendedores que, saindo do sul do país: Rio Grande do Sul, Santa Catarina, Paraná, migraram para o Centro-Oeste, Norte e Nordeste, onde, com seu trabalho, especialmente na implantação da moderna agricultura, levaram um progresso extraordinário a todas as mais longínquas regiões do país.  
         Os judeus que durante dois mil anos foram recebidos em todos os países europeus como grandes empreendedores, bons financistas, excelentes cientistas e ótimos intelectuais e, por isso, festejados no início por trazerem o progresso e o desenvolvimento, contudo, ao tomarem parte da vida social do lugar, sempre foram tratados com muita rejeição e também hostilidade.  
         Assim estaria acontecendo com esses migrantes aqui no Mato Grosso do Sul – hoje denominados genericamente de “gaúchos”. No início, recebidos com muita admiração, pois como grandes empreendedores dinamizaram a economia com suas lavouras mecanizadas, criaram grandes empresas, fundaram cooperativas bancárias e, agora, quando imaginam estar solidamente estabelecidos, se veem hostilizados por desapropriações absurdas, como acontece hoje nas tentativas de demarcar suas propriedades que passariam simplesmente, sem mais nem menos, a pertencer aos índios ou a descendentes de escravos.  
         Que me perdoem os demarcadores, mas o jovem advogado tem razão. Essas demarcações, sem estipular antecipadamente o valor a ser pago pelos bens; ou mesmo aquela mísera indenização feita aos agricultores desapropriados do Panambi faz lembrar o que Hitler fez aos judeus da Alemanha na metade do século passado.  
         Pois é, poderia dizer alguém, mas não é coisa sendo feita pelos moradores locais contra os “gaúchos”. Sim, é verdade, seria a resposta, mas aqui, como na Alemanha de Hitler, também se vê que o povo do local não apóia, mas que tem o apoio de políticos daqui, isso tem, sim. E com que objetivo esse apoio, votos? Não, evidente. Diminuir a produção do Estado e, consequentemente, sua arrecadação? Também não.  
         O argumento de que as terras pertencem aos índios – ou mesmo aos descendentes de escravos – não convence, pois o governo, este mesmo governo que outorgou aos produtores um título de posse das terras, agora representado por seus funcionários, quer demarcar as áreas a ser desapropriadas. Uma incongruência.  
         Ainda não houve grandes manifestações públicas de índios querendo terra. E não houve porque, no fundo, índios querem sua integração à sociedade e não propriedade comunitária de um imóvel. Preferem ver seus filhos nas escolas como os demais brasileiros. Por isso, todos esses recursos que serão despendidos com desapropriações, melhor resultado teriam se aplicados na integração total dos índios à sociedade. 
          Exemplo acima, de hostilidade aos “gaúchos”, serve por enquanto apenas aqui para o Mato Grosso do Sul, mas não é muito diferente nas demais regiões para onde esses empreendedores migraram. Que haja pelos locais certa resistência é compreensível, pois estão ocupando o espaço de outros, mas arrancar-lhes das mãos o que construíram por toda sua vida é inadmissível. 
         
Cidadão douradense; foi vereador, secretário do Estado e deputado federal.
            [email protected]/  

Fonte: Folha de Dourados

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