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Poder só trocou de mãos após a

Darcy Ribeiro: – 07/09/2009

 O 7 de setembro é um feriado diferente no Brasil, onde se comemora à independência do território em relação à Portugal, ocorrido em 1821. Mas ao contrário do que é propagado nos desfiles e discursos presentes em eventos comuns nessa época do ano, o poder apenas mudou de mãos e a maioria da população da época não foi beneficiada pelos gritos ouvidos “do Ipiranga às margens plácidas”. Pelo menos é o defendeu o antropólogo, escritor e político brasileiro, Darcy Ribeiro (1922-1997) no livro “O Povo Brasileiro” (1995)
Na opinião dele, o que aconteceu foi que o poder saiu em parte das mãos centralizadoras da Coroa Portuguesa para ser repartida entre uma minoria das elites locais.
 
“Quando é declarada a independência, a classe dominante local se nacionaliza alegremente, preparando-se para lucrar com o regime autônomo, tal como lucrara com o colonial. Apropriada por essa classe, a independência não representou nenhuma descolonização do sistema que permitisse transformar o proletariado externo em um povo para si, voltado ao preenchimento de suas próprias condições de existência e de progresso”, escreveu Dargy Ribeiro.
 
Ele diz ainda que essa “pseudo-indepedência”, “representou o translado da regência política, encarnada por um rei português, sediado em Lisboa, para seu filho, assentado agora no Rio de Janeiro, de onde negociaria a independência nacional com a potência hegemônica da época, que era a Inglaterra”.
 
“Uma vez reconhecida externamente e imposta internamente a legitimidade de seu poder, passa a reger daqui a sociedade brasileira, feita nação, contra os interesses de seu próprio povo. Nessas circunstâncias, o Estado apresenta também mais continuidades do que rupturas, estruturando-se como uma máquina político-administrativa de repressão, destinada a manter a antiga ordenação, operando nas mesmas linhas a serviço da velha elite, agora ampliada pelas famílias fidalgas que vieram com o monarca e por novos ricos que surgem com a modernização”, escreveu o antropólogo.
Faltou o povo
Quando a independência é proclamada, ao contrário do que aconteceu em outros países vizinhos, o povo não participa diretamente, porque quem “costurara” os acordos foram os próprios membros da classe dominante no país. “Depois da independência, muito poucas alterações afetam a vida da massa assalariada que permanece atada às plantações e submetida ao mando imediato dos capatazes”, comenta o autor em relação o fato de que a escravidão e as desigualdades continuaram existindo.
“A Independência e a República, que em quase toda a América deram lugar a um profundo esforço nacional por elevar o nível cultural da população, capacitando-a para o exercício da cidadania, não ensejaram um esforço equivalente no Brasil. Esse descaso para com a educação popular bem como o pouco interesse pelos problemas de bem-estar e de saúde da população explicam-se pelo senhorialismo fazendeiro e pela sucessão tranqüila, presidida pela mesma classe dirigente, da Colônia à Independência e do Império à República”, escreve Darcy mais à diante.
Ele comenta ainda que “toda participação democrática na vida política se reduz aos grupos de pressão oligárquicos em disputa pelo controle das matérias que afetavam seus interesses”.
Fazendeiros comandam
A classe dominante representada pelos latifundiários ganhou poder com a independência. “Nessa república de fazendeiros, os problemas do bem público, da justiça, do acesso à terra, da educação, dos direitos dos trabalhadores eram debatidos tal como a democracia, a liberdade e a igualdade. Isto é, como meros temas de retórica parlamentar. A máquina só funcionava substancialmente para mais consolidar o poder e a riqueza dos ricos”, defendeu Dary, mostrando que de lá até os dias presentes a dita classe produtora sempre esteve no poder, ou entre seus beneficiários.
No Brasil independente da época, a escravidão perdurou até 1888, as revoltas contra as elites foram sufocas e seus líderes mortos, o Congresso foi fechado várias vezes e as desigualdades continuaram.

Fonte: Folha de Dourados

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