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Diamantino, o homem que embalava as lambretas em Dourados nos anos 50

Diamantino liderou uma geração de motociclistas e com muito amor e dedicação granjeou muito amigos leais como uma grei de um pequeno pastor

História – 20/10/2009

Nicanor Coelho,
do midiamax
 

  1. Foi neste ano que Diamantino Venâncio Soares, com pouco mais de vinte anos de idade abriu a primeira oficina de motos em Dourados. Era um tempo de muitos sonhos. A guerra estava fria e a nossa região vivia a “vertiginosa marcha para o progresso” com a (CAND) Colônia Agrícola Nacional de Dourados.
    Diamantino, uma pedra bruta, aos quinze anos de idade deixou a silenciosa Santa Luzia transformada em Juti para ganhar a vida em Dourados sob o cenário de um sol forte, o calor dos paraguaios saídos dos ervais da Matte Laranjeira e a poeira fatigante da Avenida Marcelino Pires.
    Numa época em que apenas os carroções, os jipes e alguns caminhões ocupavam as largas avenidas, surgiu Diamantino, um sujeito forte, formoso e de decisões firmes para consertar as máquinas envenenadas de duas rodas. Estávamos na era das lambretas.
    Todos os jovens da época sonhavam em possuir uma destas máquinas. Diamantino é quem cuidava delas e nunca deixava que elas parassem de funcionar, mesmo com a dificuldade em encontrar peças. Ele fabricava o que era necessário para motores, rodas e outros acessórios.
    Diamantino liderou uma geração de motociclistas e com muito amor e dedicação granjeou muito amigos leais como uma grei de um pequeno pastor. E assim foi por muitos anos. Diamantino um homem solitário era o rei das noites. De dia engraxava suas mãos nos motores enquanto sonhava em construir uma família e deixar um legado para as futuras gerações. Filho de uma família numerosa, o “médico das lambretas” era muito querido entre os doze irmãos que até hoje vivem nas cercanias de Dourados.
    O diamante de Juti estava sendo lapidado pela vida e tinha certeza da sua missão, seu compromisso em não deixar as lambretas sem o seu protetor. Querido por muitas moças, preterido por outras, Diamantino foi quem escolheu a sua prenda. Armesinda na segunda metade da década de 1960 ganhou o coração do homem das motocicletas. Deste encontro nasceram Justiniano, Jânio e Jane.
    Foi nessa época que Diamantino aproveitando o êxodo dos colonos da CAND exilados a contragosto para a periferia de Dourados, seguiu o exemplo dos lavradores nordestinos e se instalou na Fazenda Água Boa que se transformava no Jardim Água Boa, o mais populoso e popular bairro da cidade.
    Foi na Rua Mato Grosso que Diamantino encontrou o lugar definitivo para construir sua casa e sua oficina. Rua Mato Grosso, 425 o endereço onde poderia ser encontrado Diamantino até o dia primeiro de outubro de 1994,quando deu o último sorriso, o último grito de dor e o derradeiro suspiro. Foi neste lugar que o “doutor das lambretas” construiu um barracão de madeira para abrigar a sua oficina que ganhou o nome de “Lambretas do Brasil”. Nesta época a Rua Mato Grosso, já sem o mato era apenas terra vermelha e poeira.
    Foi nesta rua o período mais feliz da vida de Diamantino ao lado da família. Jane, uma “bugra” brejeira de olhos azuis, metade Ceci, metade Iracema do indianista José de Alencar, é a filha mais nova. Herdou do pai o gênio. Ingênua, assim como Diamantino fala cobras e lagartos sem censura. É franca,leal e, acima de tudo, honesta e companheira.
    No meio está Jânio uma ovelha desgarrada. Longe do aprisco e da família. Tão, tão longe, ele com as mãos cheias de graxa faz a graça dos neo-motociclistas num rincão desconhecido. Aprendeu a profissão com o pai e também é um doutor dos “cavalos de aço”.
    O primogênito de Diamantino eclodiu do ventre de Armesinda numa primavera de 1968. Já nasceu sob o ronco dos motores. Um menino alegre e brincalhão. Cresceu no meio das lambretas e “garrou” amor pelo pai e pela profissão. As lambretas uniram duas gerações através do menino que recebeu o nome de Justiniano Soares Neto, em homenagem ao avô paterno.
    Alguém sabe quem é Justiniano? Não! Mas Kiko Soares é uma lenda. Está na boca do povo. Nas duas últimas décadas, Justiniano-Kiko se fez um mito. Além de excelente mecânico de motos, preparador de motores “envenenados” para corridas de MotoCross ou Speed Way, *Kiko voou alto nas pistas de Mato Grosso do Sul. Foi três vezes campeão sul-mato-grossense de *Speed Way,categoria onde dominou solitário por vários anos.
    A exemplo de Diamantino, Kiko aos quinze anos de idade se emancipou para o mundo e tão jovem tornou-se pai de Jéssica. Seguiu seu destino tendo como meta ser campeão. O melhor em tudo que fazia. Popular até demais, Kiko tem um milhão de amigos e a família formada por sua esposa Delva e os filhos Bruna, João Gabriel e Juliano, é o seu “Farol de Alexandria”.
  2. O ano em que o “Doutor Lambreta” abriu a sua oficina foi à inspiração para escolha do número para acompanhar Kiko nas competições. Com a moto “53”, Kiko Soares, conheceu palmo-a-palmo todas as pistas do estado. Participou do campeonato nacional do Paraguai onde também foi campeão. Em terras Guaranis ficou conhecido como o motoqueiro “endiablado”. De coração amanteigado e generoso Kiko doou metade do prêmio pra a construção do prédio do Corpo de Bombeiros de Pedro Juan Caballero, capital do Departamento de Amambay.
    O tempo passou como tudo na vida passa. Já se passaram quinze anos da morte de Diamantino. Tudo passou, mas o legado deixado por “médico das lambretas” ainda permanece vivo. Os exemplos de Diamantino estão vivos na memória dos filhos, irmãos e demais familiares. Estão vivos nas lembranças dos amigos que partilharam de momentos etílicos à sombra do pé de Cinamomo na Rua Mato Grosso, 425.
    Também está de pé em ruínas o antigo barracão-oficina de Diamantino onde imponentes estão sepultados alguns “restos mortais” de poucas lambretas. A memória e a história da motocicleta em Dourados estão adormecidas. O “cadáver” da Malvina, a inseparável lambreta companheira de memoráveis pescarias nos rios Dourados e Douradilho, repousa solene no velho barracão.
    Falta apenas um daqueles historiadores da UFGD (Universidade Federal da Grande Dourados) para resgatar do sono profundo a história do diamante bruto que lapidado rendeu o motoqueiro “Endiablado” fazendo acordar uma história bonita e cheia contrapontos e momentos que merecem ser lembrados por todos os tempos.
    Kiko merece reconhecimento. Diamantino precisa ser rememorado para que a cidade tenha sua história e tradições valorizadas. Diamantino merece pelo menos uma rua com seu nome, ou quem sabe, seja homenageado emprestando sua história para nominar um motódromo para enfim corrigir um erro histórico quando os políticos colocaram o nome do jogador de futebol Faé Bianchi na pista onde Kiko foi rei.

 
 

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Fonte: Folha de Dourados

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