Atenção à primeira infância ajuda a prevenir violência
CAS – 30/10/2009
Especialistas do Brasil, da França e do Canadá ressaltaram ontem nas comissões de Educação, Cultura e Esporte (CE) e de Assuntos Sociais (CAS) a importância da atenção à primeira infância para a promoção de uma cultura de paz e para a prevenção da violência.
Diretor do Centro de Excelência para o Desenvolvimento da Primeira Infância da Universidade de Montreal (Canadá), Richard Tremblay chamou a atenção para a necessidade de os programas voltados para as crianças serem avaliados a partir de critérios rigorosos. Tremblay relatou experiência realizada nos Estados Unidos entre 1935 e 1939 com crianças de 5 a 12 anos em situação de risco. Quarenta anos depois, uma avaliação feita pelo criminologista Joan McCord indicou que as crianças atendidas tiveram mais problemas na vida adulta – como tendência ao envolvimento em crimes – do que grupo similar de meninos que não haviam recebido atenção especial.
Segundo Tremblay, programas bem feitos trazem benefícios econômicos. Ele citou cálculos que indicam que a cada dólar investido no acompanhamento de crianças em situação de risco são economizados US$ 7, com vantagens para os sistemas judicial e penitenciário. Ele explicou que é importante intervir no começo da infância e que a qualidade dos recursos da intervenção é relevante, especialmente com crianças nascidas num contexto de adversidade.
Brincar
A presidente da Associação Brasileira pelo Direito de Brincar, Marilena Flores Martins, lembrou que o direito à infância está assegurado na Constituição e informou que 45,5% das famílias mais pobres do Brasil têm crianças na primeira infância – de zero a seis anos de idade.
Marilena Martins disse que, nos primeiros anos de vida, a criança precisa de afeto, estímulo, atividade e estrutura. Ela defendeu o ato de brincar como fundamental para uma cultura de paz. Segundo destacou, uma das bases da violência é a incapacidade de lidar com as frustrações, e a criança, quando brinca, aprende a controlar seus impulsos, a aceitar as frustrações e a negociar.
A especialista disse ainda que, muitas vezes, preconceitos como os de que “brincar é perda de tempo”, “a mente ociosa é a mãe de todos os vícios” e “só o trabalho dignifica o homem” acabam por impedir a erradicação do trabalho infantil.
Já o presidente da Associação Mundial da Saúde Mental Infantil, Antoine Guedeney, relatou experiência com famílias vulneráveis em Paris. Até 2010, estão sendo atendidas, a partir da gestação e até os bebês completarem dois anos, 440 mulheres com menos de 26 anos de idade que estão na primeira gravidez.
Agressividade
Ele ressaltou a importância de atenção à primeira infância, afirmando que, nos dois primeiros anos de vida, o ser humano é capaz de falar, pensar, desenvolver a curiosidade e inibir comportamentos, especialmente o agressivo.
Guedeney citou vários autores que demonstram a importância de a prevenção da violência começar cedo, com intervenções para garantir a segurança dos vínculos afetivos, considerados prioritários na primeira infância e que podem estar afetados pelo estresse de pais jovens ou ainda por dificuldades econômicas.
A audiência pública, solicitada pelos senadores Flávio Arns (PSDB-PR), Cristovam Buarque (PDT-DF) e Rosalba Ciarlini (DEM-RN), fez parte da programação da 2ª Semana de Valorização da Primeira Infância e Cultura da Paz, promovida pelo Senado Federal, em parceria com entidades públicas e privadas.
Fonte: Jornal do Senado



