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‘Brincando pelos campos de Dourados”, por Ilson Boca

Culturalmente Falando – 06/11/2009

O personagem dessa história apesar de ser da década de 50 trás consigo memórias que ultrapassa mais de um século, pois carrega as lembranças da sua terceira geração, ou seja, relembra fatos vividos nessa terra de Marcelino Pires, do tempo do seu tataravô. Nascido em Dourados na zona rural, na Cabeceira do córrego Engano, esquerda, da estrada do Porto Cambira, o cidadão Ilson Ozório, economista, poeta e ecologista.
Relembra que a sua região era cercada de matas, campos de cerrado, com a atividade no campo nativo onde criavam gado de leite, produzindo queijo, coalhada e doce de leite. Criavam  galinhas, porcos aproveitando a carne e gerando subprodutos como charque, lingüiça, paçoca de carne entre tantos outros.
 Plantando cana de açúcar, produziam rapadura, açúcar, doces de  frutas, como goiaba, mamão, amora, pêssego, abacaxi, ameixa, e tinham ainda as plantas nativas como pitanga rasteira, guavira, araçá, araticum e muitas outras. Enfim produziam tudo o necessário para a alimentação da família.
Todos os membros da família faziam parte na produção, o trabalho era familiar. Quando criança gostava de tomar banho nos rios, lagoas, no córrego do Engano e isso tudo marcou muito a sua infância, adolescência e juventude, mas como tinha o sonho de estudar fora, fazer uma faculdade e Dourados oferecia pouco nessa área foi estudar, em Curitiba. Saiu daqui para estudar em 1972, morou no campo até os vinte anos.
 Quando chegou em Curitiba conta que sentiu muita falta da terra, mas, não podia voltar antes de se formar. Quando se formou ficou trabalhando por um tempo em Curitiba. Trabalhou na seqüência aqui no MS e retornou logo em seguida a Curitiba para se casar.
Afirma que no seu retorno após dezoito anos, em 1990, tudo estava diferente do tempo em que morava aqui.
Os cerrados, os campos, não existiam mais. Certa vez, tentou encontrar a casa onde a avó morou na Cabeceira do Engano e não conseguiu, porque as máquinas do lavoureiro tinham mudado por completo a paisagem e consequentemente os costumes.
Com o êxodo rural muita gente mudou-se para a cidade, ele observador dos novos costumes, deparava com gente tomando cerveja gelada nos bares e percebia que as conversas também já eram bem diferentes.
Foi aí que sentiu um grande vazio e que  estava perdendo o seu referencial de homem do campo e pensou que precisava fazer alguma coisa para manter viva a memória daqueles tempos.
Resolveu escrever poemas para resgatar a memória e divulgar parte de sua história, pois afirma que as pessoas que vieram para cá naquela época tinha como objetivo trabalhar, produzir e ter lucros e não tiveram tempo, acredita que nem interesse em se preocupar com a parte cultural do lugar, e nem se envolver e ter conhecimento da realidade local.
            Outra iniciativa nesse sentido de resgate que assumiu foi juntar o pedaço de terra que herdou da mãe, que havia sido deixado de herança pelo avô José Urbano, juntando com outro pedaço do pai e formou a Fazendinha Ecológica, com o objetivo de recuperar a formação original da área, com mata, campos e cerrados, local que hoje serve de pesquisa para a Universidade Federal.
Hoje está defendendo a sua tese de doutorado em cima da Cultura Regional e a sua literatura tem servido de apoio nas escolas como material de base para estudo, mostrando o seu trabalho artístico, histórico e cultural.
Como economista afirma que nessa economia de mercado as empresas precisam ser rápidas e objetivas para sobreviver, por isso elas vão atuando com foco direcionado em lucratividade avançando rapidamente e transformando tudo.
Acha que houve falha da parte dos mais antigos, de não passar a cultura e os hábitos aos novatos. Eles se retraíram e as mudanças foram acontecendo muito rápido.
O primeiro poema que fez foi “Minha Vida de Menino Brincando nos Campos”, que narra a coisa que mais gostava de fazer que era brincar nos campos. Fala que quando criança, levantava bem cedo e escondido da mãe, saia para o campo, atrás de guavira, pitanga, araçá, sete capotes e ver os bichos. Os campos amanheciam com muito orvalho o que fazia com que toda a roupa ficasse molhada, para inquietação da mãe que se preocupava com a possibilidade de mordedura de cobra ou mesmo de uma gripe, às vezes até apanhava porque a mãe não gostava daqueles seus passeios, mais teimoso que era não desistia e sempre fazia os seus passeios matinais.
De sua autoria o poema Iguaçu fala da sua família, onde conta que o seu tataravô, o sr. José Luiz da Silva quando foi morar no Guassu em 1907, atravessou essas matas a cavalo pelo picadão , que era a trilha feita pelos ervateiros no meio da mata e ele quando pequeno ia com a família visitar os seus avós e os   tataravôs de carroça por esse picadão mas, aí já não havia mais tantas matas, a maior parte já havia sido derrubada.
Ilson contou que na sua família não tinha tradição em tocar instrumentos, mas apreciavam uma boa música e conta essa façanha do seu nascimento: … Quando nasceu o seu pai ampliou as instalações da casa e o construtor o Sr. Marcílio Lima, tocava sanfona (pai do grande sanfoneiro Sedário Vargas) solicitou que tocasse sanfona para comemorar o seu nascimento. Enquanto ele trabalhava na construção o seu pai foi até a cidade buscar os pedidos feito pela parteira dona Marcelina como, açúcar branco, pão de padaria e outras coisas que se consumiam nessas ocasiões especiais. De volta para o sítio passou na casa do seo Marcílio e pegou a sanfona e o violão e seguiu com o saco de compras e aquelas carga toda, com dificuldade para abrir as porteiras de vara, pois já era noite.
Assim que seu pai chegou, lá pelas oito horas da noite a música se fez ouvir, o seo Marcílio na sanfona e o violonista Neneco, seu parceiro, fez a toada daquela noite. Depois de algumas músicas o tio Salú Carneiro Alves se dirigiu ao seu pai e disse que o seu filho seria músico e doutor, músico porque o senhor Marcílio tocava muito bem e doutor porque o senhor Neneco falava muito difícil parecendo um doutor. De tanto ouvir essa história ele acredita que veio daí a vontade de tocar viola.
Conta ainda que quando foi convidado pela Clarice, há dez anos atrás, para se apresentar em um evento promovido pela Embrapa, treinou algumas músicas regionais na viola completando com a poesia a sua apresentação. Era uma roda de tereré onde declamou a poesia “Tereré”, entremeadas por músicas regionais e assim começou a sua apresentação pública nos eventos da cidade.
Para ele a cultura é uma questão pessoal de reconhecimento da necessidade de preservar os costumes, mas, que o apreço pela arte-cultura deve começar com a família. Através da arte, literatura e até mesmo o esporte devendo se espalhar em escala crescente, e afirma que o mais importante para preservar a cidadania cultural é o respeito pela diversidade. É necessário que haja uma ampla discussão para somar e facilitar a convivência de forma harmoniosa e rica, porque temos gente de todos os lugares dividindo o mesmo espaço.
E assim temos um depoimento vivo de falando culturalmente, que é o objetivo desse espaço, “Culturalmente Falando”.

Fonte: Folha de Dourados

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