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Imprudências e deixam cicatriz no corpo e na alma

Acidentes de Trânsito – 23/11/2009

Um ano simbólico para duas mulheres que tiveram suas vidas indelevelmente marcadas por acidentes de trânsito.

Com
cicatrizes na pele ou na alma, Adelaide Torres, 22 anos, e Zelina
Nogueira, 52, são exemplos de como a imprudência ao volante pode abalar
não só os automóveis, mas também o corpo, a mente e até suas próprias
famílias.

Elas são exemplos de que ações aparentemente banais,
como pisar um pouco mais no acelerador ou uma conversa rápida ao
telefone celular, podem sim causar tragédias.

A universitária
Adelaide Torres, que aceitou conversar com a nossa reportagem sob a
condição de ter seu nome verdadeiro resguardado, foi a pivô de um grave
acidente em uma das vias mais movimentadas de Teresina ano passado.

“Eu
estava me dirigindo para o centro da cidade onde ia encontrar alguns
amigos. Eu já estava meio atrasada e resolvi ligar para avisar que
estava chegando. O acidente, na realidade, foi uma sucessão de erros
mesmo.

E o primeiro deles foi sem dúvida a pressa. Liguei e,
quando já estava desligando, eu não me dei conta que o sinal havia
ficado vermelho para mim e passei como se a preferencial fosse minha.

O
carro que estava na outra direção, veio numa velocidade relativamente
alta, aproveitou a troca de sinal e continuou acelerando. Ele bateu na
minha porta, eu capotei uma vez e parei com os pneus pra cima”,
descreve.

Os momentos seguintes foram uma torrente de
sentimentos. “Foi tudo num piscar de olhos, sem o menor exagero. Quando
eu me toquei, já tava lá de cabeça pra baixo”.

Ela afirma que
conseguiu se manter calma, a princípio. Ainda dentro do automóvel,
conseguiu ligar para os amigos e para seus pais, dizendo que tinha
sofrido um acidente, mas que estava bem.
Conforme os minutos
passavam, uma multidão se formou ao redor do veículo capotado. Salva
pelo cinto, Adelaide diz que pediu para que uma das pessoas chamasse o
Samu, mas que após cerca de dez minutos de espera não conseguiu
aguentar e saiu do automóvel por iniciativa própria.

“Me tirei por mim mesma. E o pior de tudo é que juntou um monte de gente e mas ninguém realmente lhe ajuda.

Ninguém
me deu a mão nem pra sair de dentro do carro. Ficaram lá só tirando
foto, querendo roubar sua bolsa, seus sapatos… Só aí a ambulância
chegou e uma amiga, que estava perto, foi comigo ao hospital”,
confessa.

O susto, que lhe rendeu um corte na cabeça, muitos
hematomas e um caco de vidro no olho, foi apenas o início de um marco
em sua vida.Em 2008, Zelina Nogueira finalmente normalizara sua vida
após ser vítima de um acidente que lhe limitou os movimentos da perna
direita.

Um ano antes, durante o mês de junho, no cruzamento
das ruas Anísio de Abreu com Tersandro Paz, centro de Teresina, uma
motorista invadiu a via em alta velocidade e acabou colidindo em seu
carro. “Eu ia na preferencial e ela na via perpendicular. Lá é uma
subida e havia um carro-baú na esquina, tirando a visibilidade.

Quando
eu estava subindo, o outro carro entrou de uma vez. Ela vinha correndo
muito e atingiu o lado do passageiro. Com o impacto, meu carro se
desgovernou e bateu de frente no muro”, conta.

Zelina, que é
mãe de três filhos e trabalha na assessoria de gabinete do Detran,
estava indo para casa de irmã de onde partiria para uma festa junina. A
batida não só acabou com sua noite, como também rompeu o ligamento do
joelho direito e lhe deixou cicatrizes por todo o rosto.

Após
meses presa em casa, inúmeras sessões de fisioterapia, uma cirurgia no
rosto, vários médicos, a perda total do seu veículo, a funcionária
pública se erguia, deixando para trás a cadeira de rodas e as muletas
que chegou a usar. Mas para chegar até aqui, teve de superar diversas
dificuldades.

Erguer
Em ambos os casos, quer
seja como agente ou parte atingida, as duas mulheres tiveram de
aprender a se recuperar do trauma e enfrentar a mudança pós-acidente.
Adelaide, por exemplo teve de pagar, com a ajuda dos pais, as despesas
do outro motorista.

“Como tinha seguro, a gente ganhou o valor
que o carro e pagamos parte do outro carro envolvido. Foi uma prejuízo
grande, mas o emocional foi muito maior que o financeiro”, afirma a
universitária que viu sua família de certa forma também afetada pela
colisão automobilística. Já Zelina teve de mudar completamente seus
hábitos.

Antes da colisão que lhe deixou quatro meses sem sair
de casa, ela trabalhava, fazia compras, pagava contas, cuidava da filha
que mora com ela. “Fiquei dependente. Tive de contratar outra pessoa
para me ajudar. Fiquei um mês e dez dias em cadeira (de rodas).

Foi
uma experiência péssima, muito ruim. Isso muda totalmente seu ritmo de
vida, mexe muito com o psicológico”, define. A funcionária pública
também teve uma série de gastos extras com fisioterapia, consultas e
exames que não foram completamente cobertos por seu plano de saúde.

Cautela
Imprudências
como o excesso de velocidade, o uso de celular ao volante, juntamente
com o uso de álcool são bastante comuns, segundo a chefe de ações
educativas da Strans (Superintendência de Transporte e Trânsito de
Teresina), Aldea Lima. “

Estes são atos que tiram a atenção do
motorista, embora muitos acreditem que consigam falar ao telefone e
dirigir, por exemplo, a pessoa perde parte da visão da pista para poder
conversar. Qualquer imprevisto ela não vai conseguir reagir”, aponta.

A
Companhia Independente de Policiamento de Trânsito (CIPTRAN) aplicou em
2008, 104 multas por uso de celular ao volante, o que corresponde a
1,7%.

Em todo o Piauí, foram registrados 7.318 acidentes, dos quais 3.522 apresentaram vítimas.

Para
citar apenas as rodovias federais do estado, a maior parte dos
acidentes 44,1% foram causados por falta de atenção. Entretanto, essa
estatística pode não revelar um número real de colisões ocasionadas por
este tipo de imprudência.

“No mundo moderno nós temos esta
cultura da pressa, de que não se pode perder tempo. Por isso, depois de
uma batida, nenhum motorista vai admitir depois de uma batida que
estava falando ao celular ou que estava em excesso de velocidade e isso
acaba provocando um subregistro”, afirma Aldea acrescentando que, ao
invés de pensarem no respeito ao próximo e a si mesmos, a primeira
preocupação dos motoristas é não receber multas.  

Sincera
Felizmente,
Adelaide e Zelina estão bem após o susto de passar por um acidente de
carro. Enquanto a assessora do Detran já conseguiu até mesmo voltar a
dirigir, a estudante afirma que reviu sua postura no trânsito e
aprendeu uma grande lição para a vida.

“Sei que ainda hoje não
tenho muita segurança nas pernas e não posso andar em multidão, mas
estou bem e meus filhos não gostam de correr (ao volante)”, diz Zelina.
Já para Adelaide a lição foi mais profunda: “

Antes, eu não valorizava a família do jeito que eu precisava valorizar. Sou muito mais cautelosa quando eu dirijo hoje em dia.

Meu
comportamento mudou demais. Sinal vermelho é uma coisa extremamente
elementar e a gente não respeitar é absurda falta de educação com a
vida da gente e a vida das outras pessoas.

Quando eu paro e penso que podia ter acontecido uma coisa muito pior por uma bobagem dessas, eu fico chateada mesmo”, confessa.

Fonte: Portal Cidade Verde

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