André, ao seu estilo, volta a apedrejar o PT
Ao dizer que não é ladrão nem cachaceiro em ato com Requião, governador põe mais uma pedra nos caminhos de Lula e Dilma em MS
Eleições 2010 – 13/02/2010
Quando, em setembro do ano passado, tentou desculpar-se das ofensas ao ministro Carlos Minc, do Meio Ambiente, a quem chamou de viado e maconheiro e ameaçou estuprar em praça pública, o governador sulmatogrossense André Puccinelli (PMDB) disse que aquilo era apenas uma brincadeira. E é assim, “apenas brincando”, que o governador coleciona em sua bagagem verbal anos férteis em verborragia chula e preconceituosa para alvejar adversários ou até mesmo aliados que o incomodam. Ocorre que num ano eleitoral as grosseiras retóricas de André não se resumem à depreciação moral, sexual e pessoal dos que não merecem seu respeito, mas também servem para sinalizar em qual palanque prefere (ou não) subir nas eleições presidenciais. Se esse for um parâmetro revelador, basta conferir a quantidade e a variedade das ofensas dirigidas ao PT e aos petistas desde os primeiros confrontos entre os dois partidos em Mato Grosso do Sul para constatar que André não tem e não quer ter compromisso com o projeto do presidente Lula de eleger a ministra Dilma Roussef. Quem duvida não precisa recorrer à defenestração moral do ministro Minc em 2009 ou a episódios de semelhante baixaria protagonizados em ocasiões anteriores. Há, ainda bem fresquinho, um episódio que deu o tempero mais ardido e indesejado na cozinha das relações entre o PMDB andrezista e o projeto sucessório de Lula. No dia 29 de janeiro passado, André voltou a abrir o saco de maldades anti-petista ao discursar num ato organizado em Campo Grande para inaugurar a sede do PMDB e, no embalo, inflar o balão da pré-candidatura presidencial do governador paranaense Roberto Requião, que quer arrebanhar correligionários contra o apoio do partido a Dilma. Segundo o site de notícias Midiamax, naquele dia André atacou dois de seus alvos preferidos na corporação petista, o presidente Lula e o ex-governador Zeca do PT. E foi um ataque perverso: “Aqui em Mato Grosso do Sul tem governador que não é ladrão, vadio, nem cachaceiro que fica bebendo nas barrancas do Pantanal”. A agressão sublinhou um contexto de avaliações desqualificadores dos governos – e das pessoas – de Lula e Zeca, como, por exemplo, quando André afirmou que o Estado merecia mais recursos e que a União “tira dinheiro” da receita local com a redução do ICMS do gás boliviano. PESSOAL – Ficasse nas críticas políticas e administrativas, sem resvalar para o campo pessoa, André teria simplesmente feito um desabafo para, se fosse o caso, ser contestado na mesma planície. Porém, não se conteve e optou pelo solavanco pessoal, com alfinetadas que, no mínimo,desenham um cenário de ridicularização ou intentam contra a integridade dos que foram atingidos pela “brincadeira” de péssimo gosto. Afinal, o governador sabia muito bem que ao falar tais grosseiras estava referindo-se a dois homens públicos que não-raramente são flechados na mídia por charges, sarcasmos e outras maledicências que tentam estigmatizá-los como consumidores da bebida alcoólica mais popular do país. Assim, não veio ao acaso o adjetivo “cachaceiro” engastado na ponta dos dardos verborrágicos que o governador peemedebista disparou na direção do presidente da República e de um ex-governador. No final da semana passada, o episódio foi relatado por alguns órgãos de imprensa e teve um espaço de privilegiada visibilidade pública num painel eletrônico do Midiamax, na Avenida Afonso Pena, centro de Campo Grande, com a seguinte chamada: “Em ataque a Lula, André diz que não é ladrão, vadio nem cachaceiro”. A repercussão apavorou a Governadoria, que acionou os órgãos de imprensa na tentativa de justificar os ataques e desviá-los do presidente. O Midiamax acatou os apelos de André. Na quarta-feira, 9, publicou uma errata para a matéria “André diz que não é ladrão, vadio, nem cachaceiro”. Com o título “André não atacou o governo Lula”, o site escreveu que “o governador André Puccinelli não atacou o governo Lula, conforme informado em matéria publicada no dia 29/01/2010, às 17h08, sob o título ´André diz que não é ladrão, vadio nem cachaceiro´. A assessoria do governo esclarece que as críticas foram direcionadas ao ex-governador Zeca do PT”. Mas o estrago já estava feito. Primeiro, porque a velocidade da empresa para tirar a notícia dos painéis não foi suficiente e quase todo o centro de Campo Grande havia lido as chamadas. Além disso, o caso – em recortes de jornais e cópias das páginas na Internet – também já estava espalhado pelos principais núcleos de poder político e econômico do país, do Planalto ao Congresso Nacional, gabinete por gabinete, partidos políticos, grandes empresas e instituições patronais e laborais. Ventilou-se até a possibilidade de o presidente Lula adiar sua próxima viagem ao Estado, agendada para Três Lagoas no dia 19 deste mês. A viagem está mantida, apesar do mal-estar que permeia as relações entre os dois principais partidos da base aliada do presidente em Mato Grosso do Sul. O clima está ainda mais carregado porque na ânsia de redimir-se do que fez e isentar o presidente, André afirmou ter direcionado os ataques a Zeca do PT, que ainda vive sob forte consternação, abalado pela morte da mãe, há menos de uma semana. REQUINTE – No pente de sua metralhadora giratória verbal, André exibe calibres para todos os gostos, preferindo atacar sempre pelo atalho do mais chulo requinte. Se ao ministro Minc endereçou referências preconceituosas e transgressoras (estupro ou sua apologia é crime), à ministra Dilma dedicou, à distância, gracejos verbais pouco elegantes, embora associados ao contexto da política. Mas já falou sobre quem vive pendurado na região pubiana (referindo-se aos bajuladores) e, sarcástico, pôs o PT numa hipotética ciranda de motel ao comentar como faria sua relação com o partido. Pior mesmo foi quando ainda nem sonhava que dependeria tanto do presidente petista para ter tantas obras no Estado. Em Ponta Porã, André chamou Lula de “sapo barbudo” e “praga da agricultura” durante reunião em que procurava agradar produtores rurais.
Fonte: Folha de Dourados



