Reinaldo Corrêa: ‘Ausência de Antropologia no MS prejudica população e diversidade’

Dr. Reinaldo de Mattos Corrêa (*) –
A Antropologia é a ciência que se dedica ao estudo das culturas, das sociedades e dos comportamentos humanos, nas diversas dimensões históricas, políticas, econômicas e simbólicas.
No Brasil, a Antropologia tem a longa tradição de pesquisa e ensino, especialmente nas áreas de Antropologia Social e Cultural, que se ocupam dos povos indígenas, dos afro-brasileiros, dos movimentos sociais, das religiões, das identidades, das migrações, entre outros temas relevantes à compreensão da diversidade e da desigualdade no País.
No entanto, apesar da importância e da relevância da Antropologia para o conhecimento e a transformação da realidade brasileira, existem poucas universidades públicas que oferecem o curso de graduação em Antropologia no Brasil, e nenhuma no Mato Grosso do Sul, que possui a segunda maior população indígena do Brasil e a extensa fronteira com países vizinhos, como Bolívia e Paraguai.
Quais são os interesses políticos e econômicos que impedem as universidades públicas no Mato Grosso do Sul de colocarem o curso de graduação em Antropologia, tendo em vista a população indígena e fronteiriça dessa região do Brasil? Essa é uma pergunta complexa e que envolve diversos fatores, mas podemos levantar algumas hipóteses:
- falta de investimento público na educação superior, que limita a abertura de novos cursos, a contratação de professores e a infraestrutura necessária para o desenvolvimento de pesquisas e projetos de extensão.
- resistência de setores conservadores da sociedade, que veem a Antropologia como a ameaça a interesses, valores e negócios (muitas vezes mesquinhos, ilícitos, imorais…): a Antropologia questiona e problematiza as relações de poder, de dominação e de exploração que marcam a história e a atualidade do Brasil, especialmente no que se refere aos povos indígenas, aos quilombolas, aos sem-terra, aos sem-teto, aos imigrantes, aos refugiados, aos LGBTs, entre outros grupos marginalizados e discriminados.
- falta de reconhecimento e de valorização da Antropologia como a ciência que colabora para o desenvolvimento social, cultural, econômico e ambiental do País, que oferece ferramentas teóricas e metodológicas à análise crítica da realidade e que propõe alternativas à construção da sociedade mais justa, democrática e plural.
A ausência do curso de graduação em Antropologia em universidades públicas no Mato Grosso do Sul traz diversos prejuízos para a população, tais como:
- limitação do acesso ao conhecimento antropológico, que é fundamental à formação de cidadãos críticos, conscientes e engajados com as questões sociais e culturais do contexto onde habitam.
- dificuldade de formação de profissionais qualificados para atuar em áreas que demandam a abordagem antropológica, como a educação, a saúde, a assistência social, os direitos humanos, a cultura, o meio ambiente, o turismo, entre outras.
- perda de oportunidades de intercâmbio e cooperação com outras instituições de ensino e pesquisa, nacionais e internacionais, que desenvolvem projetos e programas na área de Antropologia, especialmente com foco nos povos indígenas e nas populações fronteiriças.
- redução da produção científica e acadêmica sobre a realidade sul-mato-grossense, que é rica e diversa, mas que ainda é pouco estudada e divulgada pela Antropologia.
- fragilização da defesa e da promoção dos direitos e dos interesses dos povos indígenas e das populações fronteiriças, que sofrem com a violência, a discriminação, a invisibilidade e a negação da identidade e de cultura.
- dificuldade de diálogo e de entendimento entre os diferentes grupos sociais e culturais que convivem no estado, que muitas vezes entram em conflito por questões de terra, de recursos naturais, de políticas públicas, de valores e de crenças.
- perda de referências e de memórias históricas e culturais que fazem parte do patrimônio imaterial do estado, que são transmitidas e preservadas pela oralidade, pela arte, pela música, pela religião, entre outras formas de expressão.
- falta de incentivo e de apoio à diversidade cultural, que é a fonte de riqueza e de criatividade para o desenvolvimento social e econômico do estado, que pode gerar emprego, renda, educação, saúde, lazer, entre outros benefícios para a população.
- dificuldade de enfrentamento e de superação dos problemas e dos desafios que o Mato Grosso do Sul enfrenta, como a pobreza, a desigualdade, a violência, a corrupção, a degradação ambiental, entre outros, que exigem a visão ampla, complexa e integrada da realidade.
- perda da oportunidade de contribuir à construção do Brasil mais justo, democrático e plural, que respeite e valorize a diversidade e a diferença como elementos fundamentais à convivência e a cidadania.
Portanto, podemos concluir que a ausência de um curso de graduação em Antropologia nas universidades públicas do Mato Grosso do Sul é um problema grave e que precisa ser superado com urgência, porque prejudica a população, especialmente os povos indígenas e as populações fronteiriças, que são os principais objetos de estudo e de intervenção da Antropologia. A Antropologia é a ciência que pode contribuir muito para o desenvolvimento sul-mato-grossense, pois, oferece a perspectiva crítica, reflexiva e sensível sobre a diversidade e a desigualdade que marcam a realidade sul-mato-grossense. A criação do curso de graduação em Antropologia nas universidades públicas do Mato Grosso do Sul é grande demanda social e necessidade acadêmica, que deve ser apoiada e defendida por todos os que apóiam a educação, a cultura e a cidadania.
- (*) É Produtor Rural em Mato Grosso do Sul.



