Cachê caiu, mas não faltam clientes para travestis na noite de Dourados
Comportamento – 03/09/2007
Na última reportagem da série sobre o mundo da prostituição em Dourados, a folha de dourados entrevistou a presidente da Associação de Gays, Lésbicas e Transgêneros (AGLT) de Dourados, Hudson Rosa Assumpção, mais conhecido por Cláudia Assumpção, de 40 anos.
Cláudia conta que começou a perceber que era diferente dos outros meninos aos 11 anos, e que aos 14 teve sua primeira relação, com um rapaz de 28. “Descobri minha identidade aos 14 anos em uma época que a classe era muito mais descriminada do que nos dias atuais”, diz.
Como na quase totalidade dos casos que envolvem homossexuais que optam por assumirem uma identidade visual feminina, Cláudia conta que enfrentou conflitos familiares. “Meu pai chegou a me internar em um sanatório em Campo Grande quando tinha 15 anos, porque se pensava na época que a homossexualidade era uma doença”. Segundo ela, todos os travestis de Dourados vivem longe da família, geralmente em repúblicas formada por homossexuais.
De acordo com Cláudia, na cidade, vivem 40 travestis, sendo que cerca de 20 deles seriam douradenses e os demais vindos de cidades da região ou outro estados. Destes, dois são transexuais (fizeram operação para mudança de sexo).
Não é muito, perto da estimativa de gays, lésbicas e bissexuais que Dourados deve agregar, algo em torno de 10% da população, cerca de 20 mil pessoas. “Essa é a média nacional, mas acho que Dourados tem muito mais que isso”, diz Cláudia com conhecimento de 25 anos de rua e boates. . “Sem duvida alguma, o mercado de trabalho é um dos melhores do Estado”, diz a presidente.
Na contabilidade da presidente da AGLT, cerca de 5% dos homossexuais que procuram os serviços dos travestis são casados e a mesma quantidade são de jovens entre 18 e 25 anos. Com relação às lésbicas, Cláudia estima que existam, assumidas, em torno de 500 na cidade.
Cláudia, douradense que atua como Coordenadora do Centro de Referência em Direitos Humanos e Combate a Homofobia, assegurou que Dourados têm um amplo mercado de trabalho para toda sua classe.
Sobrevivência – Cláudia diz que ainda faz alguns programas, mas não vive apenas deles. “Tenho uns clientes daqui e de outras cidades, mas não tenho tido muito tempo para fazer programas”, conta. Um luxo perto da realidade do restante dos seus colegas, que sobrevivem da prostituição.
Um programa, hoje, custa em torno de R$ 40. Mas, segundo Cláudia, pode ser por muito menos. “Alguns são dependentes químicos e fazem programa pelo preço de que for preciso para comprar uma pedra”, diz, salientando que a associação tem feito “de tudo” para ajudar na recuperação destas pessoas.
A “fissura” pela droga, somada aos casos de roubo praticados por travestis que, segundo Cláudia, vieram de fora para praticar crimes na cidade, fizeram o preço dos programas cair em Dourados.
“Eu mesma tenho uma fiel clientela, inclusive no Paraná; quando tenho que viajar, cobro pelas despesas mais o cachê; tudo fica por conta dele, inclusive alimentação e hotel”, disse, acrescentando que alguns programas chegam a custar R$ 500.
Prevenção – Cláudia diz que mantém um trabalho de prevenção para a classe, com distribuição de camisinhas, géls e cartilhas informativas de prevenção a Aids e outras doenças sexualmente transmissíveis, além de participar constantemente de reuniões e palestras.
A presidente assegura que a AGLT mantém sob controle os que estariam contaminados pela Aids em Dourados, hoje estimado em torno de quatro dos 40 travestis que atuam na cidade, porém a entidade oferece as doentes todo apoio, com tratamento médico, psiquiátrico e psicológico e medicamentos.
Com relação aos clientes da classe, a presidente diz que eles em sua maioria fazem parte da classe média alta da cidade e de outras da região, porém, todos possuem suas identidades mantidas sob sigilos, e em torno de 70 por cento procuram exercer seus momentos sexuais completos.
Polícia – Questionada sobre o relacionamento da classe com os organismos policiais que atuam na cidade, Cláudia diz que com a PM (Polícia Militar) é a melhor possível, inclusive com constantes reuniões com o comando para o combate aos travestis e trangeneros que cometem crimes contra seus clientes e com pessoas que passam por eles nas ruas.
Já com a Polícia Civil a presidente diz que por razões que desconhece o relacionamento sempre foi complicado. “Sabemos que o alto índice de uso de álcool e principalmente de drogas nos trazem muito problemas, no entanto, procuramos dentro de nossas condições em orientar toda a nossa classe com o intuito delas se cuidarem para esse grande mal”, informou a presidente.
“Não me arrependi de ter assumido a minha opção sexual e até hoje sou muito feliz, principalmente porque posso também ajudar minhas colegas”, diz a presidente da AGLT, lembrando que o Centro de Referência da AGLT, tem um orçamento de 70 mil reais vindo do Governo Federal para o pagamento de médicos; advogado; assistência social; psicólogos, funciona na avenida Weimar Torres, 816 – telefone 3423-4561.
Fonte: Folha de Dourados



