“Coloquei o pijama para a Segurança e devo muito ao povo de Dourados”
Ele ficava angustiado com as denúncias de que matava ou mandava matar, "o que não é verdade"
Adib Massad – 03/09/2007
Adib Massad: ‘Coloquei o pijama para a Segurança e devo muito ao povo de Dourados’
Ele ficava angustiado com as denúncias de que matava ou mandava matar, ‘o que não é verdade’
Em 1989 o Coronel da Polícia Militar, Adib Massad, assumiu o comando do Grupo de Operações da Fronteira (GOF), onde ficou por nove anos na “águia da fronteira”, como ficou conhecido nacionalmente o grupamento.
Figura polêmica, Adib Massad é amado por muitos e por alguns, nem tanto. Com sua postura e opinião contundentes, o coronel tornou-se, ainda em vida, um dos personagens marcantes da história de Dourados. Ele ainda se emociona quando fala da sua “gloriosa Polícia Militar”.
Ao retornar a Dourados, na semana passada, para lançar o livro “Coronel Adib: A história”, o ex-militar da reserva concedeu uma entrevista à folha de dourados, momentos antes do início da noite de autógrafos.
folha: Coronel, o senhor, por quase uma década foi um dos homeAns fortes da segurança no Estado e também foi vereador em Dourados. Como o senhor analisa esta trajetória?
Adib Massad: Antes de qualquer coisa, devo adiantar que a cidade não deve nada a mim, pois entendo que apenas cumpri meu papel de comandante de um grupo de policiais, aliás, valorosos policiais que se juntaram a mim para oferecer a população o mínimo possível de segurança que ela na época fazia por merecer. Então, o mérito não é só do coronel Adib, o mérito é de todos aqueles que de uma forma ou de outra se sacrificaram; colocaram suas vidas em risco, em busca de combater os malfeitores, que traziam à insegurança a população. O Adib sem os escrivões; o subtenente Santelmo e os soldados; os secretários de Justiça, enfim, a todos aqueles que acreditavam em nossa proposta, o GOF com certeza não iria ter naquela época a credibilidade que conseguiu ter, sem esquecer o total apoio que tive do doutor George (…Takimoto) na época vice-governador que me trouxe para atuar aqui a principio itinerante, posteriormente em definitivo. Quanto a minha eleição como vereador. Bem ! Isso devo ao povo douradense que apenas retribuiu na oportunidade, a dedicação que sempre tive no apoio as polícias Militar, Civil, Rodoviária Federal e Federal, na soma de esforços para combater os malfeitores.
folha: Quanto ao livro ?
Adib Massad: Bem, quanto ao livro, essa foi uma outra conquista que somente foi possível porque contei com o apoio do major Guimarães Rosa, e até serviu para tirar de dentro de mim uma angústia. A angústia é baseada nas denúncias de que eu matava e mandava matar, o que não era verdade, agora, combater os criminosos que atuavam não só em Dourados, mais na região de Navirai (Cone Sul); fronteira e até no Vale de Ivinhema, essa era uma das missões dos meus valorosos soldados. Vale lembrar que sob o meu comando eu tinha quatro viaturas; três delas ficavam em média 15 dias nos trechos e a quarta dava apoio a PM e a Civil aqui na cidade. Na época tinha pouco mais de 35 soldados; três escrivões; dois peritos; o delegado Regional de Polícia Civil, Luiz Carlos Machado, que sempre foi uma pessoa correta e justa, além dos meus auxiliares administrativos. Então, o livro para mim além de ser uma grande conquista pessoal e familiar, é também parte de uma história que não é só minha, mais de todas aquelas pessoas que conviveram com a era do GOF, com o Adib Massad e seus comandados. Estou feliz por fazer este livro e mais ainda pela receptividade que ele vem tendo nas cidades que estou passando junto com o major Guimarães Rosa. Perante aquelas pessoas que sempre colaboraram e respeitaram a minha pessoa como ser humano, e não como uma pessoa de índole má, mais justa, estou feliz por ter feito este livro.
folha: Por falar em GOF, o senhor conduziu uma campanha que arrecadou 200 mil dólares para a construção da sede. Hoje um grupo de pessoas ligadas à sociedade está engajado em uma outra campanha, que é em favor da construção do Hospital do Câncer. O que Adib Massad falaria para a população ?
Adib Massad: É, você lembrou bem daquela campanha que fizemos para a construção da sede oficial do GOF. Foram inúmeras reuniões na Grande Dourados; no Cone Sul; Fronteira e no Vale do Ivinhema, entretanto, atrás de minha pessoa havia a diretoria da SALVE (Sociedade de Amigos da Liberdade Vigilância e Esperança), que não quero aqui citar os nomes para não cometer injustiça, porém asseguro em nome de Deus que todos aqueles que colaboraram de uma forma direta ou indireta, a sede foi erguida e está até hoje aí servindo o hoje DOF (Departamento de Operações de Fronteiras). Baseado nisso, entendo que a população seja ela de qual classe for, quando entende que uma campanha é séria e conduzida e administrada por pessoas de bem, ela participa ativamente. Por isso, peço a essas pessoas que estão fazendo a campanha para construir o Hospital do Câncer que não desanimem. Que elas levem suas propostas não só para os douradenses, mais para todas as cidades da região, aos prefeitos; vereadores; deputados; pecuaristas; igrejas, enfim, a todas as pessoas que dependem de Dourados, que o sonho deste hospital será rapidamente realizado. Aliás, aproveito aqui e peço aos meus amigos; irmãos, para aquelas pessoas que sempre apoiaram as minhas ações a frente do GOF, que também de o apoio para que o Hospital do Câncer seja construído, pois ele será a salvação de muitas pessoas, principalmente as mais carentes. Que todos se unam em prol desta campanha, pois assim como a criminalidade, o câncer também é um grande mal e precisa ser combatido. Ajudem essa diretoria, é o que peço para todos colaborem, seja essa pessoa pobre ou rica financeiramente, pois assim como os malfeitores, o câncer não escolhe classe social para atacar.
folha: Como o senhor vê hoje o quadro da PM do Mato Grosso do Sul?
Adib Massad: Bem, primeiro tenho que fazer uma consideração. Na minha época de soldado era diferente. Ninguém queria ser polícia e aqueles que entravam na gloriosa Polícia Militar, vinha com o objetivo de servir a população. É claro que tinha aqueles maus soldados, porém estes eram facilmente identificados e colocados para foram da farda. Na minha época, a maioria dos soldados vinha das casernas (do Exército) ou era pega a laço. “Ah você quer ser polícia é. Passa lá no quartel para fazer um teste, ta” e assim surgiam os policiais da minha época, sem conhecimentos das leis, dos direitos do cidadão, porém pessoas sérias, que podem até ter cometidos equívocos ou arbitrariedades, porém por falta de conhecimento, e não por serem policiais. Hoje não, hoje tenho visto jovens na farda formados, esclarecidos, com conhecimentos das leis e dos direitos das pessoas. Hoje, a Polícia Militar é técnica, operacional e acima de tudo bem mais racional do que na minha época, o que sem dúvida alguma faz com que a gloriosa Polícia Militar venha a cada ano que passa se reciclando e se modernizando para oferecer ao povo o que ele mais precisa, a sua segurança; credibilidade e principalmente a oportunidade de poder viver em paz com sua família e com a sua comunidade. Só peço que essa nossa geração que seja honesta em suas atitudes, que honre a farda da Polícia Militar do Mato Grosso do Sul, mais nada.
folha: O douradense ainda sonha com o retorno de Adib Massad ao comando do, hoje, DOF. O senhor volta?
Adib Massad: Entenda que fico muito feliz por esta lembrança, mais a fase do coronel Adib Massad passou. A missão dele encerrou e acredito que os que estão a serviço do DOF hoje sob o comando do Joel (atual comandante) vêm fazendo um bom trabalho a frente da instituição. O Adib Massad não fez nada de mais para a população, ele apenas buscou dar a ela a segurança mínima da qual fui incumbido quando cheguei a Dourados. Por tanto, o Adib Massad hoje está de “pijama” para a segurança pública, aposentou e quer apenas viver a vida dele ao lado da família, em especial da esposa; dos filhos; das netas, e claro, estar sempre ao lado dos amigos que conquistou ao longo da sua trajetória como policial no então Mato Grosso; hoje no nosso Estado e principalmente em Dourados, uma cidade que nada deve a mim, mais que Deus sabe o quanto devo a ela.
folha: O senhor é a favor da redução da maioridade penal, coronel ?
Adib Massad: Acompanho esta discussão há muito tempo. Pena que ela sempre acontece quando ocorre uma tragédia envolvendo nossos jovens. Sou contra a redução da maioridade penal, embora entenda que nossas autoridades poderiam elaborar um amplo estudo, onde os crimes hediondos feitos pelos menores tenham sim uma maior punição, principalmente em casos de latrocínios {roubo seguido de morte}; estupros; homicídios e com o envolvimento deles no tráfico. Porém, esta punição seria uma questão social que cabe aos nossos governantes; nossos políticos colocar em prática, e não simplesmente colocar um jovem de 14, 15 ou até mesmo com menos de 18 anos atrás de uma grade, sem dar a ele a oportunidade de voltar a ter uma vida social normal, principalmente se ele teria vindo de uma classe social menos favorecida pela sorte.
folha: Para finalizar: é bom ser Adib Massad? Deixe uma mensagem para Dourados e região.
Adib Massad: Primeiramente para ser Adib Massad tenho que agradecer primeiramente a Deus; aos meus familiares; aos amigos e aos meus valorosos soldados; escrivões e delegados, enfim, aquelas pessoas que ajudaram a construir a minha história. Confesso que é um orgulho ser Adib Massad, pois sempre trouxe de berço; de minha dura infância e de minha adolescência, os bons ensinamentos que tive de meus pais. Com relação a Dourados e a região, aqui deixo o meu maior sincero pedido de perdão caso tenha errado em alguma missão, porém quero que entendam que sou uma pessoa humana e como tal sei que tanto podemos acertar como errar, e se errei, não foi por arrogância ou por covardia, mais sim, até mesmo por falta de um melhor conhecimento das leis, de estudo, enfim, tentei doar de mim o melhor para aquelas pessoas que confiavam em minha pessoa e nos meus comandados. Agora, tudo que fiz enquanto comandante do GOF de nada me arrependo e se pudesse faria tudo novamente, porém hoje como disse, estou de pijama, a idade chegou e espero que nossas autoridades policiais, em especial a minha gloriosa Polícia Militar do Mato Grosso do Sul, nossos representantes políticos, enfim, a todos aqueles que amam o nosso Estado, a sua cidade, atuam sempre em favor das pessoas que querem apenas a paz, e que os malfeitores sejam punidos perante a lei dos homens e principalmente a de Deus. Um forte abraço e muito obrigado para todos aqueles que lembram do coronel Adib com carinho
Fonte: Folha de Dourados



