Xangai – o oposto do ‘axé bunda music’
A deturpação dos conceitos da
Do Sertão da Bahia – 10/09/2007
A deturpação dos conceitos da ‘baianidade musical’ chega a revoltar os mais conceituados compositores e interpretes baianos, porém muito menos do que revolta àqueles que acreditam no que há de real criatividade e inspiração dos artistas brasileiros.
Talvez quem melhor tenha classificado o tão propalado novo ritmo tenha sido o Pedagogo, professor de Filosofia da Educação, História da Educação no Brasil, especialista em História e pesquisador da História da Música Popular Brasileira, Luiz Américo Lisboa Júnior, a quem aproveitamos para agradecer a permissão de usar seu material para consultas e, por que não dizer, pela orientação virtual que nos transmite.
Então, voltando a falar desse dito ‘novo ritmo’ baiano, muito corretamente denominado ‘axé bunda music’, ele tem contribuído negativamente, apagando da memória de muita gente tudo de bom que a Bahia sempre nos deu.
E como diz Luiz Américo, ‘O pior de tudo é que até mesmo certa parcela da população baiana passou a acreditar que isso era verdade e resolveu abraçar a causa’. Nada contra nenhum produto de consumo imediato, pois eles foram criados para isso mesmo, comprar, usar e jogar fora. Acontece que temos uma história rica que devemos preservar, além de verificarmos também que a nossa música não se resume apenas no que é feito em Salvador, esta por ser a capital do Estado tem mais visibilidade, e por isso mesmo acaba ditando as regras do mercado de consumo, chegando inclusive, e isso é muito grave, a impor um tipo de comportamento que na maioria das vezes se distancia dos hábitos e costumes do interior, e quando os invade, provoca uma deterioração de costumes locais resultando numa pasteurização cultural danosa, destruindo toda uma tradição que deveria ser mantida, e não me venham com teorias de sobre modernidade, porque neste caso específico não passa de mera desculpa para justificar essa descaracterização que ocorre no universo musical baiano, basta vermos as trieletrificações das festas de São João. Vivemos em diversas Bahias, isso já foi contemplado por mim em outro texto, mas nunca é demais lembrarmos disso, pois, afinal, é preciso construir, fixarmos conceitos e despertamos para a discussão, aonde as idéias irão se fundamentar e ampliar a visão do universo que nos cerca. Nos anos sessenta se falava em resistência cultural, engajamento político e outras tantas coisas que infelizmente não são mais objetos de discussão, é uma pena, pois mudamos o discurso e perdemos seu conteúdo. É o século XXI chegando aí gente!Não vou mais teorizar, até porque não acredito que minhas idéias mudem este panorama, não tenho essa pretensão, deixo isso para os intelectuais de plantão nas academias, nada contra elas, pois ainda acho que é lá que se continua criando e produzindo o pensamento brasileiro, elas se mantêm a salvo, apesar de algumas tentativas de derrubá-las, mas isso é uma outra conversa, o certo mesmo é partir para “os finalmente” e falar de nosso personagem, fruto dessa Bahia que muitos ainda teimam em não conhecer, mas que existe e esta bem viva. Se chegue Xangai, venha trazer sua mensagem para nossos leitores, nem que seja através da pena de um simples escriba da música popular deste Brasil tão brasileiro, e que alguns querem internacionalizar, mas que não conseguem, pois como já dizia Oswald de Andrade, Tupy or not tupy, that is the question.Eugenio Avelino, nome bonito e sertanejo nasceu na cidade de Vitória da Conquista em 20 de março de 1948, filho e neto de sanfoneiro, cresceu ouvindo música, e da boa, chegou a tocar sanfona, mas resolveu trocá-la pelo violão, e junto com ele o nome, passando a se chamar Xangai no mundo dos espetáculos, em homenagem a uma sorveteria do mesmo nome que seu pai possuía na Zona da Mata. Para não fugir a regra, foi estudar em Salvador, chegou a cursar economia, não deu certo, abandonou o curso, foi afinar o violão e ser cantador. Em 1973 viajou para o Rio de Janeiro, outro destino inevitável, gravou um disco em 1976, na CBS denominado Acontecimentos, infelizmente poucos ouviram, mas mesmo assim o prestígio crescia nos palcos onde se apresentava, parte então para uma gravação independente, recurso amplamente utilizado pelos novos compositores de sua geração que tinham uma proposta cultural desvinculada dos padrões de consumo impostas pelas gravadoras tradicionais, lançando o LP Qué qui tu tem canário, ganhando inúmeros prêmios e se firmando como compositor e intérprete. Neste disco entre outras canções destaca-se Estampas Eucalol de Helio Contreiras. Montado no meu cavaloLibertava PrometeuToureava o minotauroEra amigo de TeseuViajava o mundo inteiroNas Estampas EucalolA sombra de um abacateiroÍcaro fugia do solSubia o monte OlimpoRibanceira lá do quintalMergulhava até NetunoNo oceano abissalSão Jorge ia pra luaLutar contra o dragãoSão Jorge quase morriaMas eu lhe dava a mãoE voltava trazendo a moçaCom quem ia me casarEra a minha professoraQue roubei do Rei Lear.(Continua…)
Fonte: Folha de Dourados



