08/01/2018 14h40

Quem mais defende a pena de morte é pobre, homem e jovem

Por: Márcio Juliboni
 
 
Espelho: vítimas e criminosos têm o mesmo perfil (Imagem: Cidade de Deus/Divulgação)

Espelho: vítimas e criminosos têm o mesmo perfil (Imagem: Cidade de Deus/Divulgação)

*Descrentes da segurança pública e da Justiça, as maiores vítimas de crimes violentos são os que mais defendem a pena capital * O apoio recorde dos brasileiros à pena de morte é um dos assuntos que mais repercutem nesta segunda-feira (08) pela imprensa e nas redes sociais. Segundo o Datafolha, que realizou a pesquisa, 57% dos entrevistados defendem a pena capital. Em 2008, quando o instituto incluiu o tema pela última vez em uma sondagem, apenas 47% da população era favorável a ela. Há duas observações que precisam ser feitas. A primeira: historicamente, a maior parte dos brasileiros sempre foi favorável à pena de morte, embora em menor proporção. O próprio Datafolha mostra que os apoiadores superaram, numericamente, os que a rejeitam. Em 2008, quando ela atingiu seu menor nível de apoio, o placar era de 47% pró a 46% contra. Mas a segunda observação é a mais importante: o perfil de quem mais defende a pena de morte diz muito sobre a situação da (in)Justiça no Brasil e da falta de esperança em combater a violência por outras vias.

As fatias de entrevistados que mais se destacam a favor na pesquisa são: 1) os mais pobres, com renda até cinco salários mínimos, com 58%; 2) homens, com 60%; e 3) jovens de 25 a 34 anos, com 61%. Junte tudo e o que surge é o retrato de quem mais sofre com a violência e as altas taxas de mortalidade no Brasil: jovens homens pobres. Não se trata de um chororô machista ou misógino – são as estatísticas que o mostram. Em novembro, a Unicef, o braço da ONU para crianças e adolescentes, mostrou que o Brasil ostenta a vergonhosa 7ª posição no ranking mundial de homicídios de jovens. Com base em dados de 2015, a organização constatou que, para cada grupo de 100 mil meninos e meninas de 10 a 19 anos, a violência mata 59 no Brasil. Como comparação, na Europa Ocidental, considerada a região mais segura do mundo para esta faixa etária, a taxa é de 0,4.

Vivendo no Velho Oeste

Um recorte mais específico foi feito pelo Atlas da Violência, divulgado em junho pelo Ipea e pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública. Também com base em dados de 2015, o estudo mostra que 31.264 jovens entre 15 e 29 anos foram mortos. Como comparação, naquele ano, a proporção de homicídios, na população em geral, ficou em 28,9 para cada 100 mil habitantes. Na faixa etária citada, a taxa foi de 60,9 casos – um avanço de 17% sobre 2005. A situação é ainda pior, quando se consideram apenas homens entre 15 e 29 anos. Nesse grupo, a taxa de homicídios chega a impressionantes 113,6 por 100 mil habitantes. Em alguns Estados, a situação beira a guerra civil: Alagoas, por exemplo, é um faroeste em que 233 homens de 15 a 29 anos são mortos para cada 100 mil moradores.

O último ingrediente é a mistura entre pobreza e violência. Ao contrário do que supõe a classe média, as maiores vítimas de crimes são os mais pobres. Um levantamento do Datafolha, em outubro, mostrou que apenas 15% dos latrocínios (assaltos seguidos de morte) ocorreram no chamado centro expandido de São Paulo, a região mais desenvolvida e abastada da cidade, onde estão bairros nobres como Pinheiros e Perdizes. Em percentual, a maioria dos casos (24%) é registrada na periferia, em bairros como São Mateus, São Miguel Paulista ou Guaianases. O Datafolha constatou ainda eu 91,5% das vítimas de latrocínio são homens, e 27% tinham entre 15 e 30 anos.

Espelho, espelho meu...

Cruzando tudo isso, o que se encontra é uma conclusão lógica: a pena de morte é defendida, principalmente, por quem mais está sujeito a morrer violentamente. Jovens homens pobres são as maiores vítimas de latrocínio. Não é coincidência que sejam, também, os maiores apoiadores da pena capital. Eles nasceram e cresceram assistindo a uma guerra sem lei entre bandidos armados e pessoas humildes que apenas desejam sair para o trabalho e voltar vivas à noite. Viram parentes, amigos e vizinhos serem assaltados e, no limite, mortos por um tênis ou um celular. Mas viram, sobretudo, outras duas coisas terríveis.

A primeira: a completa falência da polícia e da Justiça para punir os criminosos e para evitar novas ocorrências. A segunda: o poder acumulado pelos bandidos. O que há em comum a tudo isso é a incapacidade do Estado em prover segurança e perspectivas melhores para essa grande camada da população. Em bom português, o sujeito defende a pena de morte, porque se cansou de esperar que o governo combata os crimes violentos de outro jeito. Tal incompetência apenas assanha os bandidos, que perdem o respeito pela Justiça. Na cabeça de quem reza para voltar vivo do trabalho, só a ameaça de ser morto pode intimidar quem rouba e mata. Afinal, se a vítima em potencial teme pela vida, é provável que o criminoso também tema.

É justo ou correto? Isso fica para a consciência de cada um. O importante, contudo, é que é compreensível e, portanto, pode levar a outras respostas. Alguém imerso em violência, que nunca viu a lei atuar com eficiência, encontrará na violência uma resposta para sua descrença. Na falta de um Estado de Direito moderno, resta-lhe apenas a Lei do Talião – olho por olho, morte por morte.

 

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