05/02/2018 14h11

Quando a mídia transforma vícios privados em virtudes pública

Por: Folha de Dourados
 

(*) Wilson Ferreira

Para impor seu DNA, leões matam os filhotes da cria anterior ao desposar a leoa. Da mesma maneira entre os humanos, em toda História, os vencedores submetem os vencidos a castigos e crueldades como forma de demonstração simbólica do poder. E no Brasil atual, os vencedores ostentam a conquista de terras arrasadas em shows midiáticos de demonstração de poder, confirmando o sombrio presságio dos escritores libertinos do século XVIII: um dia as perversões privadas se transformarão em virtudes públicas. O bizarro vídeo da deputada quase ministra Cristiane Brasil falando em "justiça" e "direitos" enquanto fortões seminus ao redor dela encaram a câmera de forma intimidadora; o trocadilho erótico de Rosângela Moro no Instagram; e a piada pronta de Temer no quadro "Topa Tudo Por Dinheiro" de Silvio Santos que se deliciava com uma pistola que disparava dinheiro são, além de exemplares da histórica violência simbólica dos vencedores, lições de propaganda política para a esquerda. Nem Cristine Brasil está preocupada com justiça e muito menos Temer quer convencer os telespectadores. São meras provocações, bombas semióticas para ocupar espaço midiático e criar espiral de polêmica diante de uma esquerda que apenas esperneia escandalizada.

Muitos analistas da atual realidade brasileira falam em "tempos estranhos". Mas na verdade são tempos proféticos. Melhor dizendo, tempos da realização de um antigo presságio dos escritores libertinos do século XVIII (Bernard Mandeville, Marquês de Sade e Restif de La Bretonne), atentos à amoralidade que iria ascender com o Iluminismo, como uma espécie de outro lado da moeda.

"Um dia as perversões privadas se tornarão virtude públicas", alertavam em pleno século das Luzes. Afinal, luzes também produzem sombras. Pensadores como Adorno e Horkheimer gastaram muitas páginas para explicar a tese de que a Razão retorna ao Mito e de que luzes podem se tornar trevas na História sob a aparência do Progresso – por exemplo, leia Dialética do Esclarecimento de Adorno e Horkheimer.

Mas nesse momento, aqui no Brasil, esse sombrio presságio libertino está muito além das reflexões filosóficas ou sociológicas: realiza-se de forma brutal, sem matizes ou nuances, através da infernal maquinação jurídico-político-midiática.

O inacreditável vídeo de Cristiane Brasil (às voltas com problemas judiciais e processos trabalhistas que a impedem de assumir a pasta do Ministério do Trabalho) cercada de enormes marmanjos ao melhor estilo Alexandre Frota e ray-ban alusivos a coisas no cinema como Stallone Cobra, no convés de um iate clamando por "justiça" é apenas a face mais visível desse movimento de escárnio diário, que a grande mídia apenas registra e faz pano rápido. Diferente de outros tempos, não tão distantes, nos quais a grande mídia tinha chiliques diários a cada ato presidencial.

Desde que o também inacreditável Alexandre Frota (dublê de ator pornô e ativista político) foi recebido no gabinete do recém-empossado Ministro da Educação Mendonça Filho, em 2016, para entregar um "documento" com propostas de "política educacional", a soturna profecia dos libertinos do século XVIII realiza-se em exemplos exponenciais.

Grosseiras demonstração de força

Só para ficar em mais dois casos recentes: em postagem no Instagram, a esposa do indefectível juiz Sérgio Moro, a advogada Rosângela Moro, entre mensagens do escritor francês Jules Renard ("a Liberdade tem limites que a Justiça impõe) e indignação contra os políticos, postou: "Para me fazer feliz, é só me beijar em dois lugares… Paris e NY".

E o outro insólito exemplo: dois homens embalsamados em suas funções, Silvio Santos (apresentador e dono do próprio canal) e Michel Temer (o presidente-desinterino) juntos no quadro "Topa Tudo Por Dinheiro" para defender a Reforma da Previdência. E ao final, pagando com uma nota de 50 reais apologia do apresentador como garoto-propaganda da reforma previdenciária – da metáfora à literalidade: no programa de maior audiência da emissora o presidente-desinterino, explicitamente, demonstra o seu modus-operandi da compra de apoios, assim como faz no dia-a-dia do Congresso.

Essa parece ser a recorrência em contextos de tomada do poder, seja na vida animal como na História: assim como os leões recém-chegados desposam a leoa e matam os filhotes da cria anterior para impor seu DNA, da mesma maneira o grupo que se apossou do Poder e do Estado após um golpe, demonstrará das formas mais grosseiras e explícitas sua força – principalmente quando as massas estão paralisadas entre o pânico e a indiferença.

E nesse contexto ritual e psíquico de ostentação para se impor e demonstrar força em terra conquistada e arrasada, as perversões privadas se tornam virtudes públicas.

Pintos no lixo

A conotação erótico-perversa das bizarras imagens da deputada e quase ministra Cristiane Brasil fala por si mesma – vestida com saída de praia tipo rede arrastão preta, cercada de musculosos homens com torso nu. Todos no convés de um iate, do qual vê-se um mar esmeralda e ouve-se música eletrônica.

"Vai ministra", fala um dos fortões. E Cristiane, condenada por processos trabalhistas, fala que qualquer um tem direito de pedir "qualquer coisa abstrata na Justiça". "Quem é que tem direito?", interroga, enquanto os fortões olham para a câmera em tom intimidador. Como se as imagens sugerissem: "Panaca! Entra na Justiça prá ver o que acontece!…".

O dedo em riste da deputada junto com a imagem aos fortões que mais parecem gigolôs-jagunços, algo como uma espécie de tropa de choque tropical da antiga SA do regime nazista, nada tem a ver com "direitos", "justiça" ou qualquer outro conceito iluminista associado à "Liberdade, Igualdade e Fraternidade". Tudo sugere o contrário: intimidação, terrificação, ameaça, choque.

Cristiane Brasil não é louca e tão "sem noção" ou "cara de pau" como sugerem muitos comentários. Ela parece à vontade, segura, em sintonia com esses novos tempos de terra arrasada onde os conquistadores dispõem do território do jeito que querem. Ela, assim como toda a tropa de choque no Congresso, sentem-se felizes como pintos no lixo.

Seu pai, o presidente do PTB Roberto Jefferson, foi o "homem-bomba" do mensalão, a fagulha que iniciou todo o processo turbinado pelas bombas semióticas midiáticas que deu-no-que- deu. Por isso, o vídeo é uma provocação, uma bravata semelhante àquelas que militantes do MBL, como Kim Kataguiri e Alexandre Frota, fazem.

(*) Mestre em Comunição Contemporânea (Análises em Imagem e Som). Jornalista e professor na Universidade Anhembi Morumbi nas áreas de Estudos da Semiótica e Linguagem Audiovisual. Pesquisador e escritor, co-autor do "Dicionário de Comunicação" pela editora Paulus, organizado pelo Prof. Dr. Ciro Marcondes Filho e autor dos livros "O Caos Semiótico" e "Cinegnose – a recorrência de elementos gnósticos na produção cinematográfica" pela Editora Livrus

 
 
 

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