30/06/2018 06h27

O 'mimimi' do orgulho LGBTIQ+

Por: Folha de Dourados
 
 
Marilise Leite Vitorino dos Santos Marilise Leite Vitorino dos Santos
 
Lucas de Souza Machado Lucas de Souza Machado

Por Lucas de Souza Machado e Marilise Leite Vitorino dos Santos

Caro leitor, quero que preste atenção em cada palavra, afinal o "mimimi" precisa ser combatido.

O que os homossexuais querem mesmo é a chamar atenção. Lotam as ruas todos os anos, e não aceitam serem criticados. O que querem são privilégios. A verdade é que se parassem de se expor tanto e de tentar impor sua forma de ser para outras pessoas, eles não se sentiriam discriminados. A homofobia não existe. A verdade é que todas as pessoas lutam da mesma forma por suas vidas, o que ocorre é que certos grupos querem rotular violências que todos em geral sofrem, todo, para se fazerem de vítimas, um verdadeiro "mimimi". Segundo pesquisas do Grupo Gay da Bahia (GGB), o número de LGBT’s assassinados subiu 30% em 2017, mas basta que pensemos um pouco para perceber o vitimismo forçado aqui, afinal existem milhares de pessoas que morrem todos os dias, que são expulsas de casa e apanham na rua por sua heterossexualidade. Você deve lembrar dos inúmeros héteros que foram assassinados na boate em Orlando, Estados Unidos em 2016, não é mesmo?

A falta de héteros na mídia, isto é, a falta de representação heterossexual na mídia apenas faz com que crianças e adolescentes sofram todos os dias em busca da própria sexualidade, uma vez que o casal protagonista da novela é sempre homossexual, e essa criança hétero que não vê na novela, no filme, no desenho, nas propagandas, por exemplo algum hétero que a represente precisa investir muito esforço para que se entender e se aceitar para então enfrentar toda a repressão por parte de família, amigos e instituições em geral, afinal o hétero só quer o direito de existir. E apesar de todo esse sofrimento, não vemos "PARADAS DO ORGULHO HÉTERO" ou chororôs em redes sociais, vemos pessoas que lutam por igualdade. Os héteros não ficam de "mimimi" mesmo que estejam tão a margem da sociedade.

É triste pensar que para alguns o que foi supramencionado não é ironia. Há muitos discursos como esse pela internet a fora, não é necessário nem buscar com afinco para encontrar, e a maioria estão devidamente envoltos no rótulo da "opinião".

Mas, afinal, por que "Orgulho LGBT"? O sentimento de orgulho vem da necessidade de lutar pelo nosso direito de existir sem perseguições. Seria maravilhoso se todas as pessoas pudessem viver suas vidas sem a necessidade de lutar e se afirmar perante a sociedade todo o tempo, mas não podemos achar que vivemos em um mundo perfeito. Essa necessidade de ruptura do silêncio e tomada de identidade inicia-se na Europa no final do século XX e chega ao Brasil em meados dos anos 70, tendo como objetivo a luta pela igualdade de direitos e segundo Mendes (2010), apud Bessa Silva et alli, (2013 p. 5):

[...] nos anos 1990 as parcerias com o Estado em relação ao combate à AIDS consolidaram-se e deram força ao aumento de grupos ativistas, principalmente de lésbicas e de travestis, elevando a diversificação e a incorporação dos vários sujeitos do movimento homossexual na atual sigla LGBT, lançando campanhas pelo reconhecimento legal das relações homossexuais e pelo enfrentamento à discriminação e à violência contra os mesmos, popularizando o termo "homofobia". É o momento de surgimento e consolidação das Paradas do Orgulho LGBT (BESSA SILVA et alli, 2013 p. 5).

Embora o movimento tenha sido consolidado, o silenciamento e a invisibilização dos LGBT’s continua acontecendo, e quanto mais nos calarmos, mais a negação da nossa existência se fortalecerá e nós nos diminuiremos. É necessário pensar em um momento de orgulho, em um momento de visibilidade, em um espaço de continuidade da luta. Oxalá haja um tempo (utópico talvez) em que não se precisará lutar pelos direitos de um grupo, visto que os direitos já nos seriam assegurados, mas enquanto houver discursos iguais ou semelhantes ao que principiou nossa reflexão, o "orgulho LGBT" precisa ser evidenciado. Como aqui é espaço de reflexão, talvez, você leitor deva pensar ou aproximar o seu pensamento ao discurso de que somos todos iguais, contudo, certifico que é apenas mais uma forma de tirar a legitimidade de nossas causas, porque se de fato fossemos todos iguais, não haveria necessidade de lutar, concorda?

Deixaremos a seguir um relato de experiência de um jovem e a posteriori refletiremos juntos sobre:

"Sempre fui muito feliz em família, até que em determinada idade me descobri diferente, não gostava de meninas e sim de meninos. Isso era imperdoável, eu ia à Igreja sempre. Ninguém poderia saber. Então, em 2012, meus pais acabaram descobrindo meu relacionamento com um menino e foi um tumulto. Meu pai principalmente, foi extremamente categórico dizendo coisas horríveis e minha mãe também não me defendeu, depois disso tudo saí de casa, chorei e me senti um lixo, me afastei da Igreja e decidi que eu ia provar a todos que eu não era gay, apenas gay, e sim era um ser humano. Voltei pra casa, estudei meu ensino médio, me relacionei com vários meninos e fui tirando muito boas notas, comecei a trabalhar e não faltava ao serviço, não me permitia errar, para que ninguém me dissesse que era culpa de ser gay. A família começou a saber ao longo dos anos que eu era gay, mas que era um bom funcionário e um bom aluno. Ia às festas de família, via os primos e primas com seus namorados, namoradas e sentia raiva, porque eu nunca poderia fazer isso. Entrei na faculdade e me dediquei muito, então, o ser gay começou a ser um detalhe, a família começou a relevar, respeitar e, de verdade, ignorar o fato de ser gay. Então, namorei firme com um rapaz que a família toda conheceu e aos poucos ser gay, de fato, para todos da família, ficou sendo secundário. Até que depois de seis longos anos todo esse esforço para que a minha homossexualidade fosse tratada como a heterossexualidade dos demais da família (como algo secundário) deu certo, afinal era melhor ser o bom neto, o bom filho, um exemplo para os outros, do que ser "o gay" (para não falar coisa pior). Seis anos de preocupação com o outro para não assustar, não envergonhar, não dar pinta, não dar o que falar. "Cuidado! As pessoas podem perceber". Isso é justo? O hétero não leva seis anos para ser aceito, não leva seis anos para entrar na reunião de família e não sentir vontade de ir embora. Bom... seis anos se foram, mas nem tudo ainda está combatido, existem outros problemas: colegas de trabalho, colegas de faculdade, professores e muito mais. Ser gay não é viver, é sobreviver, até que você decida ser autor da sua história, mandar gente pra fora da sua vida e viver de fato. Gays também querem falar do namoro para a mãe, para o pai, para todos, também sofremos por amor e as "famílias tradicionais" (algumas) não aceitam e sobram apenas os amigos para desabafar, os amigos que são vistos como "más influências". Famílias, seus filhos precisam de vocês. Pais, mães, seus filhos querem confiar em vocês. Cuidado para não se envergonhar do pai ou da mãe que você está sendo pro seu filho!"

Aos LGBT's é preciso lutar, de forma a combater o preconceito e a intolerância atual e educar a nova geração a fim de que o dia utópico (ou próximo disso) quiçá aconteça, e aos demais leitores é preciso respeito, empatia, pensar e refletir que no mundo existem vários jovens que vivem a tensão acima descrita.

Para finalizar um pensamento de Mario Sérgio Cortella em entrevista à revista Cláudia:

"O preconceito tem duas fontes: a covardia e a tolice. O intolerante em relação a etnia, cor da pele, orientação sexual, religião e extrato econômico tem medo de ser o que é. Ele só se eleva quando rebaixa o outro. Necessita ver que o outro não serve e não presta para ele poder valer alguma coisa. É um fraco que teme aquele que não é igual e se sente ameaçado por ele. Além disso, ser preconceituoso é ser burro e tonto".


Lucas de Souza Machado, 23 anos, acadêmico de Letras - Português/Espanhol, na Universidade Estadual de Mato Grosso do Sul (UEMS). Atua em projetos de monitoria e pesquisa na área de Letras com ênfase em Sociolinguística.

**Marilise Leite Vitorino dos Santos, 19 anos, acadêmica de Letras - Português/Espanhol, na Universidade Estadual de Mato Grosso do Sul (UEMS). Atua em projetos de extensão e ensino na área de Letras com ênfase em Gênero e Sexualidade pela perspectiva literária.

 

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