29/05/2018 15h34

O locaute dos caminhoneiros e os ensinamentos do golpe de 1964

Por: Folha de Dourados
 
 
Celso Lungaretti Celso Lungaretti

Celso Lungaretti, jornalista e blogueiro, participou da luta armada contra a ditadura militar

Hoje certamente existem um ou mais esquemas golpistas de extrema-direita atuando na caserna, mas todos os indícios são de que esteja(m) numa fase bem embrionária. Mesmo assim, o locaute dos caminhoneiros pode gerar situações de descontrole muito perigosas.

Vale a pena relembrar o golpe de 1964, para fins de comparação.

O esquema dos golpistas de 1964 vinha sendo montado desde a década anterior, mas ainda não estava pronto quando da renúncia do presidente Jânio Quadros em 25 de agosto de 1961. Os conspiradores nela viram, contudo, uma oportunidade de queimar etapas e resolveram precipitar as coisas. Convenceram os comandantes das três armas a tentarem impedir a posse do vice-presidente legal (João Goulart), que estava ausente, visitando a China em missão oficial.

Como o afobado come cru, eles foram derrotados:

— pela resistência do governador do Rio Grande do Sul, Leonel Brizola, que passou a conclamar o Brasil inteiro a não permitir a usurpação de poder, utilizando para tanto uma rede de emissoras de rádio que se formou espontaneamente (a Rede da Legalidade);

— pela decisão do comandante do III Exército (RS), o general legalista Machado Lopes, de colocar-se ao lado de Brizola, passando, portanto, a existir a ameaça de militares combaterem uns aos outros, hipótese que sempre horrorizou nossas Forças Armadas; e

— pela firme oposição de cabos e sargentos do Exército e Marinha ao golpe, criando outra divisão entre os fardados.

A crise acabou com a solução conciliatória de se dar posse a Goulart, mas instituir-se o parlamentarismo, de forma que os poderes presidenciais foram momentaneamente reduzidos (o plebiscito de janeiro de 1963, contudo, restabeleceu o status quo ante).

Os conspiradores, face ao fracasso inicial, tiveram de repensar todo seu planejamento. Desfecharam perseguições nos quartéis, isolando e transferindo para unidades distantes os líderes dos subalternos que haviam se colocado contra o golpe, enquanto o pusilânime Goulart nada fazia para proteger quem lhe havia sido leal.

E, percebendo que careciam de algum respaldo na coletividade, partiram para a conquista do apoio da classe média conservadora, contando para tanto com o apoio do clero reacionário e de entidades anticomunistas como a TFP e a TFM. Só se considerariam prontos para nova tentativa 20 meses depois.

O passo final foi a conquista da caserna, empreitada facilitada pelo apoio crescente que passaram a ter da classe média (afinal, os oficiais eram majoritariamente dela oriundos) e pelos préstimos de provocadores como o cabo Anselmo, que radicalizaram ao máximo a insubordinação dos cabos e sargentos das Forças Armadas contra o oficialato.

[Meu saudoso companheiro na VPR, o José Raimundo da Costa, o Moisés, era um dos líderes dos marinheiros e nunca quis acreditar que Anselmo fosse um infiltrado, embora já existissem suspeitas. O Moisés me contou como ele e os marujos atiraram no mar um capitão que veio prendê-lo. O oficial, furibundo com a humilhação que sofrera, ingressou no Cenimar após o golpe e o que mais fez foi perseguir o Moisés, com o propósito obsessivo de capturá-lo para o torturar até a morte.]

O que os oficiais mais prezam é sua autoridade. E, dias antes do golpe, a viram estridentemente ultrapassada por Jango.

Com o mandato cada vez mais ameaçado, Goulart havia finalmente descido do muro; daí ter ousado proibir a prisão de marinheiros e fuzileiros navais responsáveis por uma comemoração levada a efeito depois de vetada pelos escalões superiores. Foi a gota d’água: o oficialato alinhou-se em massa com o golpe.

A ruptura da ordem legal àquela altura já estava sendo amplamente requerida pelos capitalistas e latifundiários, além de endossada pelo presidente Lyndon Johnson.

A CIA favorecia e financiava os conspiradores há muito tempo, mas John Kennedy, caso tivesse sobrevivido ao atentado de Dallas, dificilmente lhe daria sinal verde, assim como não autorizou a disponibilização de cobertura aérea para a invasão da Baía dos Porcos, crucial para o sucesso da empreitada, mas que deixaria as digitais dos EUA impressas numa flagrante interferência na política interna de um país soberano (Cuba).

A posse em 22 de novembro de 1963 de Lyndon Johnson, um texano anticomunista que comeria na mão da CIA, significou a remoção de um importante obstáculo para o golpe, tanto que, a partir daí, só transcorreriam quatro meses e uma semana até o general Olympio Mourão Filho começar a descer a via Dutra com suas tropas.

Tanto quanto então, hão de existir esquema(s) golpista(s) tentando fazer a cabeça dos comandantes militares hoje em dia, mas, presumivelmente, em estágio bem inferior ao do dispositivo que fracassou em agosto de 1961. Se, por um milagre, gente tão despreparada (pelo que se depreende de suas ações e de sua retórica) obtivesse êxito, teríamos obtusos irascíveis no poder. Seus principais quadros são vira-latas mesmo para os pouco exigentes padrões da direita brasileira.

Não devemos, contudo, subestimar a possibilidade de que a situação, por força de uma ocorrência impactante como a morte de um caminhoneiro, escape do controle, com o desafio à autoridade constituída, os confrontos violentos e o desabastecimento se generalizando pelo país. Algo assim jamais deve ser descartado quando um governo é fraco como o do Temer.

Aí o golpe poderia ganhar dinâmica própria, embora a virada de mesa não seja, em princípio, desejada nem pelos donos do PIB, nem pelos EUA. Mas, se ficar complicado detê-la, ambos tratarão é de enquadrar os novos mandatários, para que seus interesses continuem prevalecendo.

É tudo de que a esquerda brasileira não precisa neste instante.

 

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