30/11/2018 09h10

O 'Escola sem Partido' visa mais a sexualidade do que o marxismo

Por: Folha de Dourados
 
 
Valter Campanato/ Agência Brasil - Protesto em 2014, na Comissão Especial da Câmara que analisava o Plano Nacional de Educação
Valter Campanato/ Agência Brasil - Protesto em 2014, na Comissão Especial da Câmara que analisava o Plano Nacional de Educação

Por Carol Scorce, na Carta Capital

Antes movimento anticomunista, a proposta ganhou apelo social quando as religiões passaram a atacar o debate sobre gênero nas escolas

Às voltas no Congresso Nacional, o projeto Escola sem Partido, que pretende limitar a atuação de professores nas salas de aula, em especial nos assuntos ligados aos Direitos Humanos, sexualidade e no ensino da filosofia, se transformou na potência que é hoje - capaz de influir na eleição presidencial - menos por "combater o marxismo cultural", mas por colocar a discussão de gênero como epicentro de uma disputa de narrativas.

Em 2014, ano que o deputado Flávio Bolsonaro, filho mais velho do presidente eleito Jair Bolsonaro, propôs pela primeira vez um Projeto de Lei (PL) com nome Escola sem Partido, a pesquisadora da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) Fernanda Moura estava com um estudo no forno sobre a representação da mulher nos livros didáticos.

Moura notou, então, que a discussão envolvendo censura nas escolas ganhava proeminência com o PL, e que o fator gênero era a lenha na fogueira. "Não fazia sentido estudar como gênero é debatido nas escolas se havia um projeto em curso para acabar com o pouco que se tinha. Fundamentei minha pesquisa no Escola sem Partido para começarmos a ter esse campo de conhecimento."

A gênese desse movimento é de 2004, quando o advogado Miguel Nagib propôs o Programa Escola sem Partido para combater o que chamava de "doutrinação ideológica" nas escolas, momento em que a investida contra os professores estava ainda muito mais associada ao que a extrema-direita convenciona agora chamar de marxismo cultural.

"Quando o Escola sem Partido era um movimento social calcado na ideia de que os professores têm tendências esquerdista - e com isso estariam fazendo a cabeça dos estudantes -, ficou no ostracismo. O País vivia um momento de desenvolvimento social importante naquele período, então era uma ideia sem força", explica Moura.

O que liga a ideia de Nagib a repercussão dos projetos de leis criados entre 2014 e 2015 em municípios, estados e no Congresso Nacional, é a aderência de políticos ligados aos evangélicos neopentecostais e aos católicos da renovação carismática à ideia.

Os religiosos atuavam desde 2011 nas discussões dos Planos Municipais de Educação e do Plano Nacional de Educação (PNE) em forte ataque ao que chamam de ideologia de gênero.

Também em 2011, durante a gestão de Fernando Haddad como ministro da Educação, a pasta estudava a produção de materiais didáticos de combate à homofobia nas escolas. O caso se tornou público, gerando polêmica entre a bancada evangélica no Congresso e passou a ser chamado, maldosamente, como kit gay por Jair Bolsonaro. A polêmica foi oportunamente ressuscitada na campanha eleitoral este ano.

"Nesse período, até por questões legais, burocráticas e dos arranjos políticos, o Escola sem Partido não avança como PL ou diretriz educacional, mas ganha muita força como pauta moral na sociedade. É um pânico contra os gays, lésbicas, um medo das minorias. Isso só foi possível com a atuação de grupos religiosos insistindo na questão do gênero."

Para esses grupos, os filhos são uma propriedade privada dos pais, e a educação moral deles tem de estar de acordo com as convicções da família. O discurso contra questões de gênero e o anticomunista se alinham na medida em que são abordados como ameaça. "A direita não tem respostas para os problemas da população, especialmente em momentos de crise econômica, então ela resgata a moralidade como uma forma de representação", destaca a pesquisadora.

"A linha de argumentação quando esses dois pontos se encontram é a de que os professores com a ideologia de gênero querem transformar os alunos em gays e lésbicas, e isso seria o fim das famílias como organização social, o que por consequência representaria o fim do capitalismo, transformando o Brasil em um país comunista", explica Fernanda.

A ideia vai de encontro às declarações mais recentes do futuro ministro da Educação, o colombiano Ricardo Vélez Rodríguez, e do futuro chanceler Ernesto Araújo, adeptos a teoria de conspiração do globalismo e marxismo cultural.

"Nesse contexto as crianças e adolescentes não são sujeitos de direitos; elas têm de ser uma cópia dos pais e aprender apenas aquilo que os pais querem. Então, se o pais querem que elas sejam racistas e homofóbicas as escolas não podem mais ensinar Diretos Humanos."

Para os grupos ligados ao Escola sem Partido aprovar o projeto importa, mas os efeitos criados pelo pânico moral - o que leva a estratégias diversas de perseguição nas escolas, como os vídeos ensinando a denunciar professores -, são a expressão mais relevante dessa disputa.

"O mais grave é que tratar gênero e sexualidade nas escolas é abrir um canal para as crianças denunciarem situações de abuso cometidas nos ambientes familiares, que antes elas sequer sabiam que é um abuso, um crime", diz ela. Se o projeto for implementado a tendência é esse frágil canal se fechar ainda mais.

A pesquisadora lembra ainda que os índices apontam que o estupro é cometido em maioria contra menores de idade por parentes ou amigos próximos da família.

 

Envie seu Comentário

 

Notícias

Política
Esporte
Educação
Dourados
Estado&Região
Economia
Polícia
Geral
Meio Ambiente
Rural
Tecnologia
Brasil&Mundo
Cultura
Curiosidade
Entretenimento
Saúde
Turismo
Religião
Mídia
Ciências

Colunistas

Culturalmente Falando
Cleiton Zóia Münchow
Rebecca Loise
Antenado
Enfoque
Consciência Cósmica
Gastronomia
Informe Vet
Falando de Cinema
Aniversariantes
Salada Mista
Victor Teixeira
Waldir Guerra

+ Canais

Entrevistas
Charges
Vídeos
Eventos

Expediente

Sobre Nós
Anuncie
Trabalhe Conosco
Termos de Uso