16/03/2018 14h29

Marielle errou?

Por: Folha de Dourados
 
 
Jorge Eremites de Oliveira Jorge Eremites de Oliveira

(*) Jorge Eremites de Oliveira

Li uma postagem no Facebook a dizer que Marielle teria errado por isso e aquilo e, portanto, acabou morta. Nessas horas de dor e indignação, aparecem os intérpretes da desgraça alheia para explicar os fatos em busca sabe-se lá do quê.

Lamento por não tê-la conhecido pessoalmente. Gostaria de ter tido alguma convivência com Marielle e o privilégio de ser seu amigo e batermos bons papos nas caminhadas da vida. Daríamos grandes risadas e falaríamos sobre o mundo e as pessoas no Brasil. Aprenderia muito com ela. Ah, aprenderia, sim.

De fato, Marielle errou! Errou por ter nascido mulher, preta, pobre e favelada. Errou porque ousou estudar e ser socióloga, rompendo com os grilhões da ignorância e da alienação. Errou por não se enquadrar na heteronormatividade originária da Casa Grande. Errou ainda por defender pessoas LGBTT e estar ao lado do povo de terreiro, contrariando a máxima de que o neopentecostalismo seria a fase superior do Cristianismo capitalista. Errou por ser mãe ainda muito jovem, como tantas de nossas mães, e a brilhar para muito além do que imaginavam.

Também errou por ser do PSOL – e eu não sou filiado à legenda – e combater a exploração e a mais valia, dando visibilidade à luta de classes e à guerra genocida inaugurada séculos atrás. Errou por ser do campo progressista e bradar vozes há muito caladas e sofridas. Errou por ser uma vereadora muito bem votada no Rio e por representar a classe trabalhadora e o povo preto, denunciando a violência de todo tipo. Errou por defender os direitos humanos num país cada vez menos humanizado.

Ah, Marielle errou, sim! Mas, como diria Darcy Ribeiro, não gostaria de estar na pele de quem pensa ter acertado de outra maneira. Quero errar como ela porque mais vale a pena morrer vítima da tocaia covarde dos canalhas racistas e sexistas a serviço da Casa Grande a que viver e morrer de outra maneira, sem causa alguma a defender. Sua morte, porém, aviva esperanças, estimula a solidariedade entre mulheres pretas, pardas e brancas no Rio, as quais derramaram suas lágrimas diante de sol escaldante que brilhava nos céus da Cinelândia.

Estava lá entre as milhares de pessoas e esperei seu corpo chegar junto com o de Anderson até os dois saírem da câmara municipal para o sepultamento. Chorei, abracei e me solidarizei com tantas pessoas, incluindo colegas da academia. Nossos olhares, suores e lágrimas falavam mais alto.

Marielle e Anderson, presentes, hoje e sempre! – bradavam milhares de pessoas com o punho erguido como num pacto para toda vida: Seremos todas e todos Marielle e Anderson.

(*) Doutor em História/Arqueologia pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul e professor de Arqueologia na Universidade Federal de Pelotas. E-mail: eremites@bol.com.br.

 

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