26/09/2017 06h49

Da Constituinte à "cura gay", embate entre evangélicos e LGBTs avança

Por: Folha de Dourados
 
 
 Marselha Evangelista de Souza Marselha Evangelista de Souza

Por Beatriz Drague Ramos, da Carta Capital

Mestra em ciência da religião investiga a relação conflituosa a partir dos discursos da bancada religiosa

A discussão sobre a "cura gay" voltou a circular após a decisão liminar do juiz federal Waldemar Cláudio de Carvalho, que era favorável aos psicólogos estudarem e oferecerem tratamento de reorientação sexual.

A deliberação veio após uma ação popular movida pela psicóloga Rozangela Justino, que trabalha no gabinete de um deputado da bancada evangélica e já foi vista realizando cultos na Câmara.

Controversa e questionada por outros psicólogos e ativistas LGBTs, a questão é mais um capítulo no delicado embate público e político entre setores conservadores evangélicos e o movimento LGBT.

Autora da dissertação de mestrado Evangélicos e Movimento LGBT na esfera pública: a "Cura Gay" trazendo novas perspectivas, Marselha Evangelista de Souza, mediadora judicial e mestra em Ciência da Religião pela Universidade Federal de Juiz de Fora (2016), analisa a trajetória conflituosa entre parcelas do movimento evangélico e os LGBTs.

A discussão parte dos debates da Constituinte, em 1987, passa pelo casamento homoafetivo, pelo caso do kit anti-homofobia proposto em 2011 para desembocar no debate sobre atual sobre terapias de reversão sexual.

Confira a entrevista:

CartaCapital: Recentemente, uma decisão judicial revogou parcialmente resolução do Conselho Federal de Psicologia que proibia terapias de "reversão sexual", suscitando o debate sobre a chamada "cura gay". No entanto, a senhora localiza o início dessa disputa entre parte dos evangélicos e os LGBTs na discussão da Constituinte. Como isso se deu?

Marselha Evangelista de Souza: Durante a Constituinte, o debate deu-se em torno da questão do casamento, já que a Constituição coloca que o casamento é somente entre homem e mulher. Naquele momento, isso foi levantado como uma questão pelo movimento LGBT e acabou que o discurso dos evangélicos naquele momento tornou-se eminentemente religioso. Os evangélicos estavam dentro da constituinte enquanto políticos eleitos, já o movimento LGBT participava dos debates enquanto sociedade civil. Haviam políticos que defendiam as pretensões do movimento, mas a representatividade política dos evangélicos era mais expressiva.

Como o conflito entre parcelas dos evangélicos e LGBTs se dá na discussão política atualmente

A Frente Parlamentar Evangélica (FPE) atualmente constituída é bem aguerrida na defesa de um posicionamento conservador, por exemplo, quando se fala do Estatuto da Família (PL 6583/2013), da questão dos projetos de lei de "Cura Gay", a frente quer que a família seja constituída por homem e mulher.

Quando se fala da resolução 01/1990 do Conselho Federal de Psicologia, a frente é contrária a essa resolução, mas dentro do movimento evangélico existem pessoas que não concordam com os posicionamentos da FPE. A bancada parlamentar religiosa não representa os evangélicos como um todo, só uma parcela.

Apesar do assunto já ter sido debatido no caso do kit anti-homofobia (em 2011) e nas discussões sobre o casamento homoafetivo, a senhora localizou uma mudança na postura discursiva nos evangélicos no caso da "cura gay". Qual foi ela?

Os evangélicos conservadores têm tentado se distanciar um pouco da narrativa de "estamos aqui para defender a Igreja". Agora, argumentam que a homossexualidade não é doença, mas uma orientação transitória. Na verdade, eles vêm dizendo que não há nada de biológico na questão da homossexualidade e que, portanto, uma pessoa pode mudar o seu comportamento. Eles ressaltam muito no discurso a questão da minoria de orientação sexual os "ex-gays".

Eles se embasam inclusive na resolução do Conselho Mundial de Saúde (OMS) da década de 90 que desqualifica a patologização da homossexualidade. Por fim, creem no direito a ajuda psicológica para quem quer vivenciar a vida fora da homossexualidade.

Desde 1990 a OMS não considera mais a homossexualidade como uma doença. Pensando em um percurso histórico, em que momento a busca por uma "cura gay" - passou a ser utilizada discursivamente por religiosos identificados como evangélicos no Brasil?

Esse debate da "cura gay" surge na segunda década dos anos 2000, o primeiro projeto é de 2011(Projeto de Decreto Legislativo 234/2011), o mais recente é de 2016 (PL 4931/2016), nota-se que é um projeto recorrente e vem com o fortalecimento da bancada evangélica.

Mas a ideia de que a homossexualidade é um pecado ou uma doença está na crença de um comportamento não aceito por Deus. Os evangélicos acreditam na condenação bíblica desse comportamento e aí as práticas de cura são conhecidas e divulgadas por meio de canais de televisão, congressos, encontros cristãos, entre outros.

Mas, neste momento, os parlamentares evangélicos se descolam desse discurso e tentam aproximá-lo do teor de liberdade sexual e da mudança de orientação, já que do ponto de vista deles isso não é biologicamente determinado.

No caso da "cura gay", a senhora destaca também o papel dos "ex-gays", isto é, pessoas que se dizem "curadas" da homossexualidade. Qual foi este papel, do ponto de vista político?

Quando os "ex-gays" realizaram uma audiência pública em 2015, a fim de se apresentarem para a sociedade alegaram a carência de reconhecimento e argumentaram a presença do mesmos na religião por ausência de apoio psicológico buscado no Conselho Federal de Psicologia. Eles pensam que não tinham que se aceitar e acabavam tendo a religião como uma segunda opção.

Nesta apresentação eles não se manifestavam como divulgadores de uma religião, mas como pessoas infelizes e estavam ali lutando para que outras pessoas tivessem a ajuda psicológica que os mesmos não tiveram, é um debate delicado, até porque da forma como é colocado pelos "ex-gays" são duas minorias requerendo direitos.

O Brasil elegeu a maior bancada evangélica em 2014, a Frente Parlamentar Evangélica já conta com mais de 150 parlamentares. Quais desafios a atuação e presença crescente dos evangélicos na política estabelecem para a sociedade?

Acho que o desafio é encarar a FPE não como uma coisa simplesmente religiosa. Ela é conservadora e está vendo nos evangélicos e nos "ex-gays" uma forma de se expressar eficientemente. Se existe esse tipo de decisão é porque há alguma demanda e tal demanda encontra abrigo em pessoas com poder decisório.

Então, ela deve ser discutida da maneira mais democrática possível para que as injustiças não aconteçam, para que o movimento LGBT em sua luta por direitos consiga obter esse reconhecimento e essa parcela da população (os "ex-gays") querendo seu espaço também possa ser ouvida. Devemos trazer o debate da forma mais transparente possível para que as pessoas possam ser ouvidas sem alimentar a intolerância o ódio e a violência.

O que eu posso dizer em relação a pesquisa é que os movimentos, seja evangélico seja LGBT não são uníssonos, eles não tem um bloco homogêneo de pensamentos, por isso o debate é importante, porque você não pode tomar todos eles como conservadores nem todos os gays como liberais.

Muitas vezes, a questão é apresentada pela mídia como uma "disputa" entre dois setores da sociedade. No entanto, por um lado, os evangélicos contam com um aparato midiático, político e financeiro forte, mas o mesmo não pode ser dito dos LGBTs. Como a senhora vê essa correlação de forças?

No embate do cenário político atual, a FPE tem muito mais poder, já que tem o Estado [ao seu lado] e está institucionalmente no poder.

Os evangélicos são muito diversos, mas a expressão que ganha mais atenção da mídia e do parlamento hoje é a mais conservadora. Então, o discurso conservador tem tido maior alcance. Os evangélicos que não são conservadores não tem tanta voz.

Dentro da tese de democracia agonística, o conflito é permitido e a hegemonia de pensamento é algo ruim. A visão democrática é a da diversidade e não do inimigo a ser eliminado. No entanto, hoje, o cenário político vivenciar o discurso de eliminação da diferença é muito mais forte do que o de uma disputa política natural.

 
Protesto de parlamentares cristãos contra a Parada Gay em 2015, no plenário da Câmara dos Deputados - Lula Marques/AGPT/Fotos Públicas Protesto de parlamentares cristãos contra a Parada Gay em 2015, no plenário da Câmara dos Deputados - Lula Marques/AGPT/Fotos Públicas

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