14/03/2017 14h56

Marti – Ainda existe censura no Brasil?

Por: Folha de Dourados
 
 
Jonatan Nunes Teixeira Jonatan Nunes Teixeira

(*) Jonatan Nunes Teixeira

Antes de tudo, gostaria de frisar que, embora este artigo esteja assinado por mim, ele representa a voz daqueles professores, especialmente os que são contratados, que se veem obrigados a calar-se diante de situações injustas nas escolas em que trabalham, por medo de sofrer represálias por parte daqueles que detêm o poder. Assim sendo, em resposta ao título deste artigo, a resposta é: sim. Ainda existe censura. Ainda existe repressão. Mas não uma repressão explícita como aquela em que vivíamos nos anos de chumbo do Brasil, mas uma censura velada, oculta pelas pessoas que ocupam cargos de confiança no setor público. E, em virtude do que ouso chamar de rixa política, um conceituado escritor douradense vem sofrendo esse tipo de repressão. E não é de hoje.

Para que leitor possa entender o caso, relato aqui: em maio de 2015, a Secretaria de Educação do município através da senhora Rose Liston, que se diz bibliotecária, um belo dia, sem mais nem menos, encaminhou ordem a todas as escolas municipais que o livro Marti: sem a luz do teu olhar, de autoria do douradense Brígido Ibanhez, fosse recolhido das prateleiras das bibliotecas das escolas municipais. Queridos leitores, se esse simples fato não for chamado de censura, digo-vos que nada mais poderá sê-lo.

A questão mais revoltante é que já se passou mais de um ano do fato acontecido e até a data de hoje a Secretaria de Educação não deu uma explicação plausível do porquê desse pedido de remoção – a bibliotecária supracitada disse apenas que se "cumpriam ordens superiores" – a mesma desculpa esfarrapada utilizada pelos alemães de Hitler ou pelos que mataram e torturaram nos tempos da ditadura militar em nosso país - e até a presente data o livro de Ibanhez não voltou às prateleiras das escolas. Ou seja, até o momento os estudantes da Rede Municipal – em cuja grade curricular já não se tem espaço para a literatura regional e sul-mato-grossense - não poderão sequer conhecer na biblioteca de sua escola a obra de um conterrâneo douradense.

Mas a pergunta que não quer calar é: por que um simples livro causou tanta polêmica? Estimados leitores: tive acesso ao livro e não encontrei nele conteúdo sexualmente explícito ou ofensivo – o que poderia ser um motivo para o recolhimento do livro das escolas. O que encontrei foi um retrato de nossa cidade de Dourados. Ao ler o livro nos sentimos em casa porque moramos nesta cidade, conhecemos os pontos de referência que Brígido nos dá no livro. A obra, por si só, é linda. Como numa novela, o livro tem vários núcleos que no desenrolar da trama vão se entrelaçando. Assim sendo, é um livro que, entre uma crítica e outra, nos faz refletir sobre a realidade, melhor dizendo, sobre esta terra em que pisamos. A trama não se encaixaria em nenhuma parte do mundo que não seja Dourados, em virtude do jeito como Brígido descreve pequenos detalhes que são peculiares da nossa terra.

O enredo principal do livro gira em torno de uma jovem douradense que, após ter sido vítima de um estupro, não bastando ter que lidar com o trauma da violência que sofrera, descobre que engravidara após o fato. O que vemos, no livro, nada mais é do que drama de uma jovem (que poderia ser muito bem uma leitora do livro) tentando superar os traumas de uma violência sexual. Em um ponto do livro a personagem enlouquece, sofre de depressão pós-parto (afinal sua filhinha é fruto de um ato de violência – de alguém que ela nunca soubera quem era), se vê sendo carregada pela família para tratamento psiquiátrico. Mas o livro não é só tragédia. Nesse ínterim, Marti, a personagem-título, descobre que, apesar dos problemas, ainda existem pessoas que a amam. E não podemos esquecer que embora se trate de uma obra de ficção, é uma coisa que pode muito bem acontecer na realidade. A cada dia lemos e ouvimos notícias de meninas vítimas de violência sexual. Vamos nos calar diante disso? Não. Ao contrário, devemos lutar para que isso não aconteça.

Curioso é que a obra de um escritor douradense é retirada das prateleiras com a desculpa mais esfarrapada do mundo. Não havia, em minha humilde opinião, a menor necessidade de remover um exemplar sequer das escolas. Pra mim essa atitude covarde da SEMED tem outro nome: retaliação. Digo isso porque existem nas bibliotecas de Dourados (ou em qualquer biblioteca do mundo) obras com conteúdo bem mais polêmico do que o livro de Ibanhez e que até a presente data ninguém se incomodou com a presença deles lá. Cito alguns: Lolita, de Vladimir Nabokov; O cortiço, de Aluísio Azevedo; Capitães de Areia, pra não citar a maioria dos livros de Jorge Amado – todos esses contém em suas páginas algum conteúdo sexualmente explícito. Mas que por pertencerem ao "cânone" literário ficam lá, acessíveis. O livro de Brígido não é "canônico" – porque assim quer a administração pública municipal. E, mesmo não tendo qualquer conteúdo ofensivo foi recolhido das escolas. Esse é o valor que a Secretaria de Educação dá para a literatura douradense. Zero.

O fato é que já se passou mais de um ano desde a ocorrência. Tivemos a promessa da prefeitura de que o livro voltaria ainda em 2015 às escolas. Até a presente data, o livro não voltou. Peço à classe dos professores que ao invés de passarem seu tempo guerreando entre si, se dividindo entre efetivos e contratados, negando muitas vezes o direito de voz aos contratados – unam-se para que possamos ter uma educação melhor. Preocupem-se menos com se o Governo Federal vai colocar a Educação Física como disciplina optativa e mais com o fato de que a obra de um douradense nato sofre perseguição e censura. Peço à pessoa que se sentiu ofendida ao ler Marti que se pronuncie e nos dê uma explicação plausível do porquê de tanto furdunço em cima de um bom livro, de um grande autor que reside aqui, em nossa cidade.

E ao Brígido, fica aqui meu registro de solidariedade. Marti é uma obra linda e, de minha parte lutarei para que receba a justiça que merece. Quem sabe um dia, talvez, nós não nos encontremos na sombra de certo pé de acácia para tomarmos um rico tereré? Até lá, um forte abraço!

(*) Professor da Universidade Federal da Grande Dourados (UFGD)

Nota da Redação: o livro foi retirado das escolas em 2015, durante a administração do ex-prefeito Murilo Zauith e o artigo do professor Jonatan Nunes Teixeira foi publicado em outubro de 2016 no jornal Diário MS.

 

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