29/06/2018 08h27

Crianças não sabem como nós. Elas sabem outras coisas!

Por: Folha de Dourados
 
 
Renato Suttana e Magda Sarat Renato Suttana e Magda Sarat

Em 2006 fomos pela primeira vez na parada da diversidade – ou parada do "orgulho gay" – em Dourados. Na ocasião, levamos conosco nossa filha, que tinha três anos de idade, para caminhar na marcha acompanhando a passeata. Levávamos bandeiras, ouvíamos músicas, discursos, palavras de ordem, e aproveitávamos para nos divertir com o passeio, o evento e o clima de festa.

Dias depois, escuto uma conversa entre minha filha e a prima da mesma idade, em que ela contava à prima que tinha ido à "parada gay". No meio da conversa, ela pergunta: "Prima, você sabe o que é gay? A outra criança, que não sabia do que se tratava, nada respondeu.

Então, do alto de seus três anos ela sabiamente ensina: "Gay é igual à tia Satine, homem e mulher, tudo junto, ao mesmo tempo!" Satine foi uma amiga querida, com quem ela conviveu durante algum tempo, e que não está mais entre nós: foi brilhar em outros céus.

A resposta dada pela menina pode não conferir com a diversidade de identidades de gênero, de orientações sexuais, de sexualidade e padrões impostos e esperados que conhecemos. Pode não ser coerente com a literatura sobre a temática e muito menos com as pesquisas sobre as quais muitos teóricos e estudiosos se debruçam, mas expressa a concepção e a lógica de uma criança, com sua singularidade e jeito próprio de ver o mundo, que é uma lógica firmada na experiência empírica e na vivência de participar e conviver com pessoas e movimentos diversos.

Por isso, como educadora, pesquisadora e professora formadora de profissionais para a Educação Infantil, eu tenho certeza que as crianças aprendem desde cedo quando expostas a situações saudáveis de aprendizagem. Uma escritora famosa, a filósofa francesa Simone de Beauvoir, já havia dito que "não se nasce mulher, torna-se". Assim, peço licença para parafraseá-la, dizendo que não se nasce preconceituoso, racista, intolerante, homofóbico e sexista.

Ao contrário, as crianças aprendem a ser cidadãos melhores, desde muito cedo, quando vivenciam experiências de respeito, tolerância, aceitação e convivência com a diferença. Tais aprendizagens precisam ser estimuladas pelos adultos com as quais convivem em experiências e práticas cotidianas. A história acima, vivida por nossa família, nos lembra como sempre foi e é importante para todos que crianças vivenciem esses movimentos nos quais a educação e a formação estão presentes e nos ensina também que elas absorvem do seu próprio jeito, ao serem instigadas pelo convite à aceitação do outro. É compartilhando da experiência vivida que nos somamos ao coletivo que prepara a Parada do Orgulho LGBT + em Dourados, para convidar a todos e todas a participar, levando suas crianças e oferendo-lhes um momento de encontro saudável e uma oportunidade de reflexão sobre a vivência coletiva.

Sobretudo, será uma celebração da vida comunitária e, em especial, da vida de um grupo de indivíduos que, pertencendo à comunidade, vêm lutando diariamente para existir socialmente e ter seus direitos como cidadãos respeitados, como quaisquer outros indivíduos. Afinal, como disse a criança, gay é tudo junto, homem e mulher, ao mesmo tempo, numa partilha das alegrias, sofrimentos, desejos, esperanças e frustrações que são os de todos nós! Agradecemos aqui à querida Satine, onde ela estiver, por ter ensinado isso à nossa filha.

Profa. Dra. Magda Sarat (FAED/UFGD) Prof. Dr. Renato Suttana (FACALE/UFGD)


Magda Sarat: Doutora em Educação (UNIMEP) e Pós-doutora (UBA/Argentina). Professora Faculdade de Educação da Universidade Federal da Grande Dourados (UFGD) e Líder do Grupo de Pesquisa Educação e Processo Civilizador (GPEPC/UFGD). Pesquisadora da Infância e da Educação Infantil. magdaoliveira@ufgd.edu.br

Renato Suttana: Doutorado em Letras-Literaturas de Língua Portuguesa (UNESP). Pós-doutorado em Letras (UBA/Argentina). Professor da Faculdade de Comunicação Artes e Letras da UFGD. Escritor, mantém na Internet, no endereço http://www.arquivors.com um sítio de literatura com publicações de autoria própria e de colaboradores. renatosuttana@ufgd.edu.br

 


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