09/06/2017 14h07

A escola como um espaço de construção: um olhar sobre a práxis educativa

Por: Folha de Dourados
 
 

Luciene Maria da Silva e Silva, licenciada e bacharel e especialista em Geografia pela UFMS, advogada e pós graduanda em Direito.

Uma das questões mais relevantes do aspecto educacional diz respeito às relações presentes no cotidiano das escolas, seja entre educandos, seja entre estes e a equipe escolar.

No passado, tais relações se davam dentro de um contexto de evidente temor aos profissionais da educação, posto que os castigos físicos eram permitidos e colocados em prática numa vasta gama de atitudes, como a palmatória, instrumento de madeira, cujos golpes – denominados "bolos" - nas mãos do alunos, pela pressão dos orifícios no objeto, causavam dores intensas. Mas, nunca se resumia apenas a isso.

Havia ainda os grãos de milho, onde alunos eram obrigados a ajoelhar-se, pilhas imensas de livros e jornais, que eram depositadas nos braços dos alunos, que ficavam a segurar o peso por longo tempo, puxões de orelhas, beliscões; tudo isso realizado na presença do público em geral, ocasionando tanto a dor física como a intensificação da dor moral. Quando aluna na rede pública paulista, conheci tais métodos.

Lembro-me como se fosse hoje, mesmo após passados mais de trinta anos, o puxão de orelhas em mim aplicado, recordo a dor, recordo a vergonha que fez minha face arder, recordo a vontade de que naquele momento o chão se abrisse para que eu desaparecesse ali mesmo… Lembro-me de mais: das meninas cujo tratamento era diferenciado olhando para mim com piedade, enquanto os meninos riam ao largo, gerando em meu ser uma revolta impossível de dimensionar.

Cresci, me formei professora, comecei a lecionar em escolas públicas de periferia e pude perceber do outro lado da sala de aula que as diferenças não começam na escola, mas, sim, tem suas raízes fora dela, sendo a sala de aula somente um reflexo das disparidades presentes na vida dos indivíduos, desde o seu nascimento.

Os castigos físicos foram abolidos, mas, as diferenças agravaram-se ainda mais. Os espaços foram sendo ainda mais delimitados; raríssimas as crianças que recebiam os "cuidados" das mães como algumas colegas de sala, notadamente, porque a imensa maioria das mulheres ingressaram no mercado de trabalho como forma de garantia da subsistência da família.

A ausência dos pais no cotidiano das crianças e jovens pode ser sentida na sala da aula. Indisciplina, agressividade e atos violentos fazem parte do dia-a-dia das escolas, o que não me passou despercebido nas quase duas décadas em que ali estive.

Percebi, reconheci e vivi experiências as mais diversas enquanto professora: crianças que se prostituíam em troca de alimento, vítimas de incesto, de abandono…

Toda essa realidade acarreta um pavor imenso em quem trabalha com educação: a insegurança quando se está sozinho dentro de uma sala de aula com alunos agressivos é indescritível.

Indiscutivelmente é na escola que deságua toda a problemática social vivida pelos alunos. Ali, seja pelo fato de ser um espaço coletivo, seja pela ideia de que seria um local de construção, de convivência mais íntima, tendo em vista que muitas crianças e jovens já não vivem essa realidade em seus lares, em razão da luta diária dos pais pela sobrevivência, que os obriga a passar mais tempo no trabalho do que em família, ocorre toda uma série de conflitos, cujo desfecho resulta num prejuízo ao bom andamento das atividades ligadas ao ensino-aprendizagem.

Demais disso, notadamente, as crianças e adolescentes dos bairros mais humildes convivem ainda com a ausência de tudo, das condições mínimas de sobrevivência digna, transformando suas vidas numa luta diária, onde as regras se estabelecem pela necessidade de se manter vivo. Dentro dessa realidade, usual se utilizar do ataque como forma de defesa, pois impera a lei do mais forte: quem não ataca sucumbe e isso é apreendido logo cedo.

A escola acaba por ser a extensão dessa realidade posta e os educadores não possuem nenhum respaldo para o gerenciamento de situações de conflito. Na sala de aula, por exemplo, é o professor e seus alunos, a lousa e o giz.

Quando de situações que fogem ao controle, o educando é encaminhado à coordenação/direção, onde são aplicadas as penalidades de advertência verbal, escrita ou suspensão das aulas. O aluno assina, o pai assina, o aluno cumpre e volta-se à estaca zero – ou não.

Não há preparo para a equipe pedagógica, não há apoio de nenhum profissional/setor da sociedade para a solução efetiva desse problema.

Diante disso, enquanto professora, ouvi falar de umas medidas educativas que prometiam "colocar o aluno na linha". Mas não era um projeto direcionado ao estado de São Paulo. Pensei: seria essa a solução milagrosa para acabar com os problemas vividos na escola? Cheguei até a acreditar que sim.

Mas, ao tomar conhecimento que na cidade em que lecionava, uma colega levou um soco nas costas somente porque havia pedido para o aluno sentar-se, que no município próximo um inspetor de alunos foi duramente surrado por retirar de dentro da sala de aula uma bicicleta a qual o agressor "passeava" com a mesma pelo local, senti que a solução estaria bem longe das tais medidas.

Considerando o fato recente ocorrido essa semana, de que um diretor de escola na cidade de Naviraí foi esfaqueado pelas costas por advertir verbalmente um aluno, denota-se que, muito embora esteja na condição de autoridade no âmbito educacional, a equipe gestora-pedagógica se encontra solitária em seu mister de garantir a disciplina em seu espaço de atuação, restando inconcebível a ideia de que atribuir a esses profissionais a possibilidade de aplicação de penalidades mais rigorosas seria a melhor saída para acabar de vez com atos de indisciplina.

Isso porque, se somente por advertir verbalmente o aluno, a resposta foi agressão física, qual seria a resposta de uma criança/adolescente que convive diariamente com a violência em todas as suas nuances, ao lhe ser imposta a penalidade de varrer o pátio, limpar carteiras, lavar banheiros? Fundamental asseverar que para esses alunos, que se obrigam a enfrentar toda a série de violações a direitos em seu cotidiano, a regra é a do vale tudo, pois eles não tem mais nada a perder, pois já são despossuídos desde o berço.

Assim, como a aplicação de suspensão ou expulsão (as mais graves atualmente utilizadas) são vistas com indiferença, as medidas apresentadas no projeto de lei que tramita atualmente perante a Assembleia Legislativa do Estado também o serão. Ou não, podem servir como elemento de vazão a toda a revolta reprimida, cuja reação poderá trazer consequências ainda mais trágicas a quem estiver na condição de alvo desse sentimento – podendo ser o professor, o coordenador ou o diretor da escola, como o foi no caso de Naviraí, lamentavelmente.

Aliás, o resultado será pior, pois essa vivência já permeada de castigos, como a fome, a falta de condições dignas de vida, fará com que esses alunos encarem tais medidas como mais um leão a ser morto diariamente e a regra será aplicada: a melhor forma de defesa é o ataque!

Há que se buscar soluções como as já vivenciadas em muitos projetos existentes nas comunidades em todo o país, que oferecem aos educandos uma inserção na sociedade de maneira efetiva, onde esses adquiram a sensação de pertencimento, onde aprendam a respeitar sendo respeitados como cidadãos que são, onde prevaleça o diálogo, onde se proponha algo que os permita olhar para a frente e enxergar um horizonte melhor do que os que vivenciam agora.

Para isso, necessário se faz um olhar de toda a sociedade para a problemática vivida pela educação, propondo práticas inclusivas e humanizadas, conscientizadoras, tendo em vista que a escola é o local onde deve se desenvolver a reflexão e o respeito, não comportando mais nenhuma forma de punição que reduza o indivíduo a uma condição humilhante, degradante, espetaculizadora, mas que desperte em cada um o melhor que tenha a oferecer.

 

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